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A Tribulação de Sete Anos

 

A Tribulação de Sete Anos

Thomas Ice

Ele fará firme aliança com muitos, por uma semana; na metade da semana, fará cessar o sacrifício e a oferta de manjares; sobre a asa das abominações virá o assolador, até que a destruição, que está determinada, se derrame sobre ele” (Daniel 9.27).

Críticos da interpretação literal da profecia bíblica têm frequentemente questionado a legitimidade bíblica de um termo que usamos: “Tribulação”. A verdade de que haverá um tempo mundial de tribulação que durará por sete anos é derivada principalmente dos livros bíblicos de Daniel e do Apocalipse; todavia, essa verdade é usada muitas vezes em outras passagens. Espero demonstrar neste artigo o fato de que a Bíblia afirma, sim, que haverá um período de sete anos conhecido como Tribulação, o qual acontecerá no futuro relativamente aos dias presentes.

A Tribulação em Deuteronômio

Quando a nação de Israel acampou às margens do rio Jordão, antes de colocar um pé sequer na Terra Prometida, o Senhor deu-lhe um resumo de toda a história da nação por meio de Seu porta-voz, Moisés.

Deuteronômio é essa revelação, e é como um mapa indicando para onde a história está se encaminhando antes que se empreenda a viagem. A revelação de um evento denominado a Tribulação é incluída por Deus como parte do itinerário original. Embora diferentes segmentos da jornada histórica tenham sido atualizados com maiores detalhes, sendo acrescentados ao longo do caminho, jamais foi feito um único ajuste ao curso original. Parte dessa jornada inclui a Tribulação.

No processo da exortação de Moisés à nação de Israel, ele apresenta, em Deuteronômio 4.25-31, um resumo daquilo que aconteceria à nação eleita depois que cruzasse o rio Jordão e se estabelecesse na terra. Essa passagem inclui o fato de que a nação seria espalhada por todo o mundo, mas que um dia se reuniria novamente. Deuteronômio 4.29-30 diz:

De lá, buscarás ao Senhor, teu Deus, e o acharás, quando o buscares de todo o teu coração e de toda a tua alma. Quando estiveres em angústia, e todas estas coisas te sobrevierem nos últimos dias, e te voltares para o Senhor, teu Deus, e lhe atenderes a voz”.

Assim, vemos que já em Deuteronômio, logo no início, Deus delineia um plano futuro para Israel, que inclui um período comumente chamado “a Tribulação”.

A Tribulação nos Profetas

Edificando sobre a introdução de Moisés à “Tribulação” em Deuteronômio 4.30, os Profetas usam esse termo em referência pelo menos quatro vezes em três passagens. Tomando esses textos cronologicamente, a primeira passagem que examinaremos está em Jeremias 30.7, e é o tão conhecido “Dia da Angústia de Jacó”:

Palavra que do Senhor veio a Jeremias, dizendo: Assim fala o Senhor, Deus de Israel: Escreve num livro todas as palavras que eu disse. Porque eis que vêm dias, diz o Senhor, em que mudarei a sorte do meu povo de Israel e de Judá, diz o Senhor; fá-los-ei voltar para a terra que dei a seus pais, e a possuirão. São estas as palavras que disse o Senhor acerca de Israel e de Judá: Assim diz o Senhor: Ouvimos uma voz de tremor e de temor e não de paz. Perguntai, pois, e vede se, acaso, um homem tem dores de parto. Por que vejo, pois, a cada homem com as mãos na cintura, como a que está dando à luz? E por que se tornaram pálidos todos os rostos? Ah! Que grande é aquele dia, e não há outro semelhante! É tempo de angústia para Jacó; ele, porém, será livre dela. Naquele dia, diz o Senhor dos Exércitos, eu quebrarei o seu jugo de sobre o teu pescoço e quebrarei os teus canzis; e nunca mais estrangeiros farão escravo este povo, que servirá ao Senhor, seu Deus, como também a Davi, seu rei, que lhe levantarei. Não temas, pois, servo meu, Jacó, diz o Senhor, nem te espantes, ó Israel; pois eis que te livrarei das terras de longe e à tua descendência, da terra do exílio; Jacó voltará e ficará tranquilo e em sossego; e não haverá quem o atemorize. Porque eu sou contigo, diz o Senhor, para salvar-te; por isso, darei cabo de todas as nações entre as quais te espalhei; de ti, porém, não darei cabo, mas castigar-te-ei em justa medida e de todo não te inocentarei” (Jr 30.1-11).

Considere as seguintes observações encontradas em Jeremias 30.1-11 sobre o “Dia da Angústia de Jacó”:

  • Será um tempo de sorte restaurada para Israel e para Judá (Jr 30.3).
  • Será um tempo no qual Israel e Judá serão trazidos de volta para sua terra a fim de tomarem posse dela (Jr 30.3).
  • Será um tempo de dores para Jacó (isto é, o Israel nacional) das quais ele terá libertação (Jr 30.7).
  • Será um tempo único na história (Jr 30.8).
  • Será um tempo no qual a escravidão do Israel nacional terminará (Jr 30.8).
  • Isso levará a um tempo em que Israel servirá ao Senhor e a Davi, seu rei (Jr 30.9).
  • Isso levará a um tempo em que Israel será reunido desde longe e habitará na terra em tranquilidade e sossego, sem que ninguém lhe inspire medo (Jr 30.10).
  • Será um tempo em que serão destruídas as nações por onde Israel foi espalhado (Jr 30.11).
  • Será um tempo no qual Deus punirá Jacó justamente e destruirá parte dele (Jr 30.11).

Esta passagem não fala de nenhum tempo passado de juízo sobre Israel, mas se encaixa no padrão profético de um tempo futuro no qual Israel retornará de outras nações para sua própria terra, passará pelos testes da Tribulação, mas será resgatado daquele tempo à medida que o Senhor julgar as nações. Esse tempo, então, leva ao tempo de obediência e bênção nacional de Israel. Esta é a Tribulação e ela ainda está no futuro.

“Aquele dia é dia de indignação, dia de angústia e dia de alvoroço e desolação, dia de escuridade e negrume, dia de nuvens e densas trevas, dia de trombeta e de rebate contra as cidades fortes e contra as torres altas”.

Daniel 12.1-2 nos apresenta uma outra passagem importante sobre a Tribulação.

Nesse tempo, se levantará Miguel, o grande príncipe, o defensor dos filhos do teu povo, e haverá tempo de angústia, qual nunca houve, desde que houve nação até àquele tempo; mas, naquele tempo, será salvo o teu povo, todo aquele que for achado inscrito no livro. Muitos dos que dormem no pó da terra ressuscitarão, uns para a vida eterna, e outros para vergonha e horror eterno”.

Esta passagem sobre a Tribulação inclui os seguintes elementos:

  • Nesse tempo” se refere à seção anterior (Daniel 11.36-45), que é descritiva das muitas atividades do Anticristo durante a Tribulação (Dn 12.1).
  • Será um tempo em que o arcanjo Miguel “se levantará”, indicando que ele defenderá Israel contra seus inimigos (Dn 12.1).
  • Será um tempo de angústia como jamais ocorreu na história nacional até aquele ponto (Dn 12.1). Essa passagem é citada por Jesus em Mateus 24.21.
  • Será um tempo em que todos os israelitas eleitos serão resgatados (Dn 12.1).
  • Será um tempo seguido pela ressurreição dos israelitas salvos e dos não-salvos (Dn 12.2).

Novamente, temos a figura do Israel nacional durante o tempo da maior angústia imposta por seus inimigos em toda a história; mas Deus, através de uma intervenção angelical, resgatará Sua nação eleita (veja Mateus 24.31). Isto se encaixa no padrão de uma tribulação futura, mas não se correlaciona com o juízo sobre Israel que ocorreu no ano 70 d.C., como alguns críticos afirmam.

A passagem final do Antigo Testamento sob consideração é Sofonias 1.14-18. Este texto junta praticamente todos os termos em uma passagem usada para descrever e designar a Tribulação encontrada na Bíblia. Mais da metade dos termos sobre a Tribulação no Antigo Testamento são encontrados nesta passagem.

Está perto o grande Dia do Senhor; está perto e muito se apressa. Atenção! O Dia do Senhor é amargo, e nele clama até o homem poderoso. Aquele dia é dia de indignação, dia de angústia e dia de alvoroço e desolação, dia de escuridade e negrume, dia de nuvens e densas trevas, dia de trombeta e de rebate contra as cidades fortes e contra as torres altas. Trarei angústia sobre os homens, e eles andarão como cegos, porque pecaram contra o Senhor; e o sangue deles se derramará como pó, e a sua carne será atirada como esterco. Nem a sua prata nem o seu ouro os poderão livrar no dia da indignação do Senhor, mas, pelo fogo do seu zelo, a terra será consumida, porque, certamente, fará destruição total e repentina de todos os moradores da terra”.

É interessante que a ênfase dessa passagem está no juízo do Senhor sobre as nações quando “a terra será consumida e (…) todos os moradores da terra” (Sf 1.18).

Esta passagem afirma que, durante a Tribulação, o Senhor julgará as nações.

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O Dia do Senhor

O “Dia do Senhor” é o termo mais amplamente usado no Antigo Testamento para descrever o tempo que chamamos de “a Tribulação”. O Dr. Paul Benware resume as atividades do “Dia do Senhor” como um tempo no qual “o Senhor intervirá na história humana para julgar as nações, disciplinar Israel e estabelecer Seu governo no reino messiânico”.[1]

Novamente, vemos uma característica recorrente no Dia do Senhor que já vimos em outras descrições da Tribulação, que é o Senhor defendendo Israel contra as nações. Isto fica especialmente claro em Zacarias 14.1-8.

Eis que vem o Dia do Senhor, em que os teus despojos se repartirão no meio de ti. Porque eu ajuntarei todas as nações para a peleja contra Jerusalém; e a cidade será tomada, e as casas serão saqueadas, e as mulheres, forçadas; metade da cidade sairá para o cativeiro, mas o restante do povo não será expulso da cidade. Então, sairá o Senhor e pelejará contra essas nações, como pelejou no dia da batalha. Naquele dia, estarão os seus pés sobre o monte das Oliveiras, que está defronte de Jerusalém para o oriente; o monte das Oliveiras será fendido pelo meio, para o oriente e para o ocidente, e haverá um vale muito grande; metade do monte se apartará para o norte, e a outra metade, para o sul. Fugireis pelo vale dos meus montes, porque o vale dos montes chegará até Azal; sim, fugireis como fugistes do terremoto nos dias de Uzias, rei de Judá; então, virá o Senhor, meu Deus, e todos os santos, com ele. Acontecerá, naquele dia, que não haverá luz, mas frio e gelo. Mas será um dia singular conhecido do Senhor; não será nem dia nem noite, mas haverá luz à tarde. Naquele dia, também sucederá que correrão de Jerusalém águas vivas, metade delas para o mar oriental, e a outra metade, até ao mar ocidental; no verão e no inverno, sucederá isto”.

Ajuntarei todas as nações para a peleja contra Jerusalém” (Zc 14.2). “Então, sairá o Senhor e pelejará contra essas nações, como pelejou no dia da batalha” (Zc 14.3). Isto dificilmente se encaixa no evento do ano 70 d.C. ou em qualquer outra possibilidade histórica, como alguns alegam. Trata-se de algo que aguarda cumprimento no futuro.

A Septuagésima Semana de Daniel

As “setenta semanas” de Daniel, profetizadas em Daniel 9.24-27, são a moldura dentro da qual a Tribulação, ou a septuagésima semana, acontecerá.[2] O período de sete anos da septuagésima semana de Daniel apresenta o período ou o tempo de duração da Tribulação. Uma apresentação gráfica das setenta semanas é uma grande ajuda para se compreender que a futura Tribulação terá sete anos de duração. Isto é confirmado no Apocalipse, quando há referências a dois períodos de três anos e meio. O ministério das duas testemunhas ocorre nos primeiros três anos e meio (Apocalipse 11.3), enquanto é dito que outros eventos da Tribulação ocorrerão nos três anos e meio seguintes (Apocalipse 12.6; Ap 13.5).

Como as sessenta e nove semanas já foram literalmente cumpridas na história (como foi visto acima), segue que a semana final deve ser cumprida da mesma maneira. Qualquer tentativa de encontrar um cumprimento literal dos sete anos finais requer uma lacuna de tempo entre a sexagésima nona e a septuagésima semanas. Isso nos proporciona a base para que a semana final da profecia de Daniel seja cumprida literalmente no futuro.

A Tribulação em Zacarias

Zacarias foi uma das contribuições finais para o cânon do Antigo Testamento. Esta profecia prova ser especialmente útil a qualquer pessoa que esteja interessada na época em que ocorrerá a Tribulação. O enfoque de Zacarias não foi somente sobre a nação de Israel, mas ele fornece um enfoque profético sobre Jerusalém. Os capítulos 12 a 14 de Zacarias envolvem detalhes proféticos que creio serem descritivos de uma Tribulação futura.

Zacarias descreve um tempo ainda futuro quando Israel será rodeado por exércitos gentios hostis de todas as partes da terra. Nesse tempo, o Senhor intervirá para salvar os judeus, na medida em que Israel se converter a Jesus como seu Messias.

Zacarias 12 a 14 mostra claramente um tempo em que todas as nações da terra terão circundado Jerusalém em um cerco. Quando este fato acontecer, o Senhor não usará exércitos gentios como Seu agente de juízo, como aconteceu no ano 70 d.C; em vez disso, Ele intervirá para resgatar Israel dessa ameaça, que acontecerá na futura Tribulação. Esta passagem descreve um tempo ainda futuro quando Israel será rodeado por exércitos gentios hostis de todas as partes da terra. Nesse tempo, o Senhor intervirá para salvar os judeus, na medida em que Israel se converter a Jesus como seu Messias, como está indicado em Zacarias 12.10 e Zacarias 13.1:

E sobre a casa de Davi e sobre os habitantes de Jerusalém derramarei o espírito da graça e de súplicas; olharão para aquele a quem traspassaram; pranteá-lo-ão como quem pranteia por um unigênito e chorarão por ele como se chora amargamente pelo primogênito” (Zc 12.10).

Naquele dia, haverá uma fonte aberta para a casa de Davi e para os habitantes de Jerusalém, para remover o pecado e a impureza” (Zc 13.1).

Zacarias 14 descreve um cenário consistente com uma interpretação futura desses eventos:

  1. A Tribulação terminará com a Segunda Vinda de Jesus a Jerusalém para resgatar Israel, Seu povo arrependido.
  2. A vinda do Senhor não resultará em juízo sobre Israel através dos exércitos das nações que cercarão Israel; em vez disso, ela leva a um juízo divino sobre as nações e ao resgate de Israel.
  3. Depois da Segunda Vinda começará o Milênio, no qual Israel será abençoado nacionalmente.
  4. Israel receberá Jesus como seu Messias, o que resultará em bênçãos mundiais a todas as nações do mundo.

Conclusão

A Bíblia afirma claramente a existência de um período de tempo futuro ao qual denominamos comumente de Tribulação, que terá uma duração de sete anos. O propósito da Tribulação será expurgar os judeus rebeldes e incrédulos, o que levará a uma conversão nacional de Israel a Jesus como seu Messias. Mais adiante, virá um tempo sobre o qual Apocalipse 3.10 diz que Deus testará os habitantes da terra, ou os incrédulos, a fim de demonstrar a incredulidade deles na história, não importando a que testemunhas ou circunstâncias eles estarão expostos. Maranata! (Thomas Ice — Pre-Trib Perspectives)

Notas:

  1. Paul Benware, Understanding End Times Prophecy [Entendendo a Profecia dos Tempos do Fim] (Chicago: Moody Press, 1995), p. 244.
  2. Uma das discussões mais legíveis e extensivas sobre a cronologia das 70 semamas é encontrada em Harold H. Hoehner, Chronological Aspects of the Life of Christ [Aspectos Cronológicos da Vida de Cristo] (Grand Rapids: Zondervan Publishing House, 1977), pp. 115-39. Uma apresentação mais popular é de Herb Vander Lugt, The Daniel Papers [Os Documentos de Daniel] (Grand Rapids: Radio Bible Class, 1994).

As Instituições Divinas

As Instituições Divinas

Thomas Ice

À medida que vemos o declínio dos remanescentes da cultura baseada na fé cristã nos Estados Unidos e em todo o mundo, precisamos ser relembrados dos padrões e do propósito de Deus para a humanidade. A vontade de Deus para a humanidade foi revelada no primeiro livro da Bíblia – Gênesis. Cerca de 40 anos atrás, assisti a uma apresentação de um resumo da vontade de Deus para a raça humana, intitulada “As Instituições Divinas”, de autoria do pastor Charles Cough,[1] da Igreja Bíblica Lubbock nos anos 1970. Essa informação bíblica deu-me uma visão dessas questões que tem sido de grande ajuda para mim até ao dia de hoje.

Instituições Divinas

As instituições divinas funcionam dentro das alianças bíblicas que se relacionam à vida social dos seres humanos. De acordo com Clough:

As instituições divinas são estruturas reais absolutas construídas dentro da existência social do homem.[2]

O termo “instituição divina” foi usado durante séculos pelos cristãos, particularmente nos círculos reformados, para descrever as formas sociais básicas fixas.[3]

As instituições divinas foram criadas por Deus, por isso são chamadas divinas, mas se aplicam a toda a humanidade, desde o tempo de Adão e Eva. As estruturas sociais básicas do homem não evoluíram simplesmente com o tempo, mas foram parte do ato de criação de Deus.

Instituições Divinas Anteriores à Queda

A primeira instituição divina é o domínio responsável (Gn 1.26-30; Gn 2.15-17; Sl 8.3-8). É a esfera na qual um indivíduo é responsável diante de Deus pelas escolhas que faz. O homem foi criado para ser o vice-regente de Deus sobre o planeta Terra, a fim de governá-lo sob a autoridade do Senhor. A queda resultou em uma perversão da responsabilidade do homem, mas Deus nunca isentou-o de tal responsabilidade.[4] Isto significa que cada ser humano, individualmente, é responsável diante do Senhor pelo trabalho criativo projetado para glorificá-lO. Deus o projetou para que, através das escolhas individuais, possamos demonstrar na história um registro de obediência ao Senhor, ou de rebelião contra o Criador. Depois da Queda, observa Clough:

Em vez de um domínio piedoso e pacífico sobre toda a terra debaixo da autoridade de Deus e de Sua Palavra, o homem luta e abre seu caminho a um domínio falso feito por meio de suas próprias obras (cf. Tg 4.1-4).[5]

A escolha individual é vista como a área em que a pessoa ou confia em Cristo como seu Salvador, ou O rejeita. Ninguém pode fazer tal escolha em lugar de outro indivíduo.

A segunda instituição divina é o casamento (Gn 2.18-24). Esta instituição tem sua origem no matrimônio entre Adão e Eva, em Gênesis 2. É nesse âmbito que o relacionamento sexual deve ser experimentado e, juntos, marido e mulher devem cumprir com o mandado cultural de dominar sobre a criação. Vemos que a mulher é chamada “ajudadora”, e foi trazida por Deus para Adão, pois este precisava de uma ajudadora que correspondesse com ele a fim de auxiliá-lo em seu chamado para dominar a natureza.

Diferentemente dos animais, a chamada diferenciação sexual da humanidade não existe meramente para a procriação; é também para o domínio.[6]

Mais tarde, a extrema importância da estrutura do casamento aparece no Novo Testamento, quando Paulo revela que o casamento tipifica a união entre Cristo e a Igreja (Ef 5.22-23).[7]

Clough faz o seguinte comentário bastante útil:

A humanidade não consegue expressar a imagem de Deus a não ser como ambos, “homem e mulher”, juntos (Gn 1.27). […] Além disso, o papel da mulher como “ajudadora”, em Gênesis 2.18, não tem a intenção de ser menor em importância, nem secundário. O termo usado para “ajudadora” em outras partes é atribuído ao próprio Deus (Êx 18.4; Dt 33.7). Todavia, é inegável que a Bíblia coloca ênfase sobre o homem como aquele que recebe seu chamado de Deus, e que depois dá forma à sua escolha de esposa. (…) Juntos na divisão do trabalho, o homem e a mulher se separam de suas próprias famílias, em contraste com uma família extensa, sendo que o jovem marido tem que tomar completa responsabilidade de liderança diretamente sob as ordens de Deus.[8]

A terceira instituição divina, edificada sobre as duas primeiras, é a instituição da família.

Na Bíblia, é a família, não o indivíduo, que é a unidade básica da sociedade. (As propriedades, por exemplo, são atribuídas às famílias na Lei Mosaica).[9]

A família existe para o treinamento da geração seguinte (cf. Êx 20.12; Dt 6.4-9; Ef 6.1-4).[10]

A família é a instituição responsável pela continuidade de cada legado familiar por ser responsável pela educação e pelos bens. Mesmo que uma família escolha usar professores substitutos, a família é responsável por certificar-se que a criança seja adequadamente educada. Clough nos diz:

A família e o casamento não podem ficar separados do domínio. Onde o domínio é pervertido e o ambiente é arruinado, a fome e a pobreza seguem como resultado. Onde o casamento é desonrado e onde as famílias estão degradadas, a sociedade fracassa. Não há quantidades de leis, programas ou “redefinições” de casamento e de família que possam salvá-los. Deus projetou as instituições divinas para proporcionarem domínio e prosperidade.[11]

monumentoA família é a instituição responsável pela continuidade de cada legado familiar por ser responsável pela educação e pelos bens. Mesmo que uma família escolha usar professores substitutos, a família é responsável por certificar-se que a criança seja adequadamente educada.

A Queda não alterou nenhuma das instituições divinas; pelo contrário, ela corrompe o homem que as usa de maneira incorreta. Clough explica:

Quando o homem decaído se defronta com a corrupção em cada uma dessas estruturas sociais, ele responde de várias maneiras. Uma maneira é reinterpretar as lutas contra o pecado em termos de economia (a “luta de classes” de Marx) ou de raça (os racistas brancos e negros) ou de psicologia (Freud e outros). Uma outra evasiva é abandonar as próprias instituições, classificando-as como “convenções” sociais obsoletas e arbitrárias, que precisam de uma reengenharia. Todas essas respostas, contudo, são fracassos que custam caro para as sociedades que as experimentam. No fim, elas refletem a mentalidade pagã, que nega a responsabilidade da queda e a anormalidade do mal.[12]

Instituições Divinas Posteriores à Queda

Pelo menos mais duas instituições divinas foram estabelecidas depois que o homem caiu em pecado. Ambas foram estabelecidas depois do Dilúvio e foram projetadas para restringir o mal em um mundo decaído. As três primeiras instituições divinas são positivas, ou produtivas, da sociedade, enquanto que as duas últimas são negativas e projetadas para restringir o mal em um mundo decaído.

A quarta instituição divina é o governo civil, por meio do qual Deus transferiu ao homem, através da Aliança Noaica, a responsabilidade de exercer autoridade no reino, ajudando a restringir a maldade depois do Dilúvio (Gn 9.5-6). Antes do Dilúvio, o homem não poderia executar juízo sobre o mal, como pode ser visto na maneira que Deus ordenou aos homens que tratassem do assassinato de Abel por Caim (Gn 4.9-15). Esta instituição divina se baseia na punição capital (Gn 9.5-6) e existe para o propósito de restringir o mal (Rm 13.3-4). A autoridade judicial está implícita na ordem dada por Deus para as instituições civis exigirem vida por vida. Embora a pena capital tenha se tornado desagradável à cultura ocidental apóstata, ela ainda é a base para o estabelecimento do governo civil por Deus.[13]

A quinta instituição divina é a diversidade tribal, ou o nacionalismo, que também foi estabelecido depois do Dilúvio a fim de promover a estabilidade social em um mundo decaído (veja Gn 9.25-27 e compare com Gn 10-11 e Dt 32.8). Verifique que isto não é diversidade racial, mas sim diversidade tribal. Essa instituição divina não envolve raças, mas tribos, ou famílias. Clough explica:

Durante todo o período pós-diluviano, Deus preservou a estabilidade e a saúde social do homem ao fazer um grupo ou tribo disputar contra outro a fim de maximizar o verdadeiro progresso e retardar a influência do mal (cf. At 17.26-27).[14]

Folhetos Personalizados

A diversidade tribal foi implementada através da confusão das línguas na Torre de Babel (Gn 11.1-9). Por que Deus quis separar a humanidade? Muitos crêem que a humanidade deveria ficar junta em unidade. Gênesis 11.6 explica o motivo pelo qual Deus confundiu a linguagem humana: “E o Senhor disse: Eis que o povo é um, e todos têm a mesma linguagem. Isto é apenas o começo; agora não haverá restrição para tudo que intentam fazer”. Desta forma, a única razão pela qual a humanidade quer se unir é para se rebelar mais eficientemente contra Deus, como foi visto no incidente da Torre de Babel. É por isso que a história atual está se movendo em direção ao globalismo, à medida que nos movemos para mais longe de Deus, e é por isso também que o objetivo do Anticristo na Tribulação é maquinar a criação de um governo único estabelecido contra o plano e os propósitos de Deus. A Tribulação terminará com a intervenção direta de Deus e o juízo, assim como foi no Dilúvio. Nesse ínterim, Deus diminui a rebelião coletiva do homem através do governo civil e da diversidade tribal.

O propósito da diversidade tribal pode ser ilustrado pelas diferenças entre os cascos dos grandes navios. Até cerca de 120 anos atrás, todas as grandes embarcações que navegavam no mar tinham um único e grande casco. Se houvesse um buraco suficientemente grande no casco, o navio geralmente afundaria, uma vez que toda a embarcação se encheria de água. Então, os fabricantes de navios começaram a construir compartimentos múltiplos nos cascos das grandes embarcações, considerando que, se aparecer um buraco em um compartimento, os outros compartimentos poderiam manter o navio flutuando. Assim também acontece com a humanidade. Se uma tribo se corrompesse, Deus não teria que julgar o mundo inteiro. Ele poderia usar outros povos para julgar aquela tribo, sem necessidade de um julgamento de proporções mundiais. Esta é uma das maneiras com que Deus conduz as nações entre o Dilúvio e a Sua Segunda Vinda.

Conclusão

A partir desta abordagem bíblica ao governo e à sociedade vemos que ela é, primeiramente, consistente com os princípios teológicos do Dispensacionalismo. Assim, as responsabilidades sociais e políticas da pessoa são individuais, exceto no caso do cuidado com as viúvas, que é feito pela igreja (1Tm 5). Essas responsabilidades foram dadas através de instituições divinas a toda a humanidade, na Criação ou depois do Dilúvio. Esse entendimento produz uma visão de governo conservadora e vê a responsabilidade individual, o casamento e a família como os setores produtivos de uma sociedade. Como a responsabilidade principal do governo civil é restringir o mal para que as instituições anteriores à Queda possam ser produtivas, a Bíblia não dá apoio a nenhuma forma de planejamento ou interferência governamental nas instituições produtivas. Durante a atual era da Igreja, um crente, como indivíduo, deveria funcionar socialmente dentro da estrutura das instituições divinas, levando em conta as ordens a ele dadas como membro da Igreja, o Corpo de Cristo. Maranata! (Thomas Ice — Pre-Trib Perspectives)

Notas:

  1. Se você estiver interessado em ouvir a série de áudios de Charles Clough sobre “The Biblical Framework” [A Estrutura Bíblica] (em inglês), ela pode ser baixada em www.bibleframework.com. Clough ministra sobre as Instituições Divinas no início de sua série sobre a Estrutura.
  2. Charles A. Clough, Laying The Foundation [Colocando o Fundamento], revisado (Lubbock: Lubbock Bible Church, 1977), p. 36.
  3. Clough, Laying, p. 36, f.n. 36.
  4. Charles A. Clough, A Biblical Framework for Worship and Obedience in an Age of Global Deception, Part II [Uma Estrutura Bíblica para Adoração e Obediência em uma Época de Engano Global, Parte II], p.39. Extraído do seguinte endereço da internet: www.cclough.com/notes.php.
  5. Clough, Biblical Framework, p. 60.
  6. Clough, Biblical Framework, p. 40.
  7. Clough, Laying, p. 37.
  8. Clough, Biblical Framework, p. 40.
  9. Clough, Biblical Framework, p. 41.
  10. Clough, Laying, p. 37.
  11. Clough, Biblical Framework, p. 41.
  12. Clough, Biblical Framework, p. 61.
  13. Ver Clough, Laying, p. 83 and Biblical Framework, pp. 97–98.
  14. Clough, Laying, p. 84.

Fique Longe Dessa Cabana

Fique Longe Dessa Cabana

James B. De Young

O livro A Cabana vendeu milhões de cópias em todo o mundo e está para ser lançado como um filme. Mas, enquanto o romance quebra os recordes de vendas, ele também rompe a compreensão tradicional de Deus e da teologia cristã. E é aí que está o tropeço. Será que um trabalho de ficção cristã precisa ser doutrinariamente correto?

Quem é o autor? William P. Young [Paul], um homem que conheço há mais de uma década. Cerca de quatro anos atrás, Paul abraçou o “Universalismo Cristão” e vem defendendo essa visão em várias ocasiões. Embora freqüentemente rejeite o “universalismo geral”, a idéia de que muitos caminhos levam a Deus, ele tem afirmado sua esperança de que todos serão reconciliados com Deus, seja deste lado da morte, ou após a morte. O Universalismo Cristão (também conhecido como a Reconciliação Universal) afirma que o amor é o atributo supremo de Deus, que supera todos os outros. Seu amor vai além da sepultura para salvar todos aqueles que recusaram a Cristo durante o tempo em que viveram. Conforme essa idéia, mesmo os anjos caídos, e o próprio Diabo, um dia se arrependerão, serão libertos do inferno e entrarão no céu. Não pode ser deixado no universo nenhum ser a quem o amor de Deus não venha a conquistar; daí as palavras: reconciliação universal.

Será que um trabalho de ficção precisa ser doutrinariamente correto?

Muitos têm apontado erros teológicos que acharam no livro. Eles encontram falhas na visão de Young sobre a revelação e sobre a Bíblia, sua apresentação de Deus, do Espírito Santo, da morte de Jesus e do significado da reconciliação, além da subversão de instituições que Deus ordenou, tais como o governo e a igreja local. Mas a linha comum que amarra todos esses erros é o Universalismo Cristão. Um estudo sobre a história da Reconciliação Universal, que remonta ao século III, mostra que todos esses desvios doutrinários, inclusive a oposição à igreja local, são características do Universalismo. Nos tempos modernos, ele tem enfraquecido a fé evangélica na Europa e na América. Juntou-se ao Unitarianismo para formarem a Igreja Unitariana-Universalista.

Ao comparar os credos do Universalismo com uma leitura cuidadosa de A Cabana, descobre-se quão profundamente ele está entranhado nesse livro. Eis aqui algumas evidências resumidas:

1) O credo universalista de 1899 afirmava que “existe um Deus cuja natureza é o amor”. Young diz que Deus “não pode agir independentemente do amor” (p. 102),[1] e que Deus tem sempre o propósito de expressar Seu amor em tudo o que faz (p. 191).

2) Não existe punição eterna para o pecado. O credo de 1899 novamente afirma que Deus “finalmente restaurará toda a família humana à santidade e à alegria”. Semelhantemente, Young nega que “Papai” (nome dado pelo personagem a Deus, o Pai) “derrama ira e lança as pessoas” no inferno. Deus não pune por causa do pecado; é a alegria dEle “curar o pecado” (p. 120). Papai “redime” o julgamento final (p. 127). Deus não “condenará a maioria a uma eternidade de tormento, distante de Sua presença e separada de Seu amor” (p. 162).

3) Há uma representação incompleta da enormidade do pecado e do mal. Satanás, como o grande enganador e instigador da tentação ao pecado, deixa de ser mencionado na discussão de Young sobre a queda (pp. 134-37).

4) Existe uma subjugação da justiça de Deus a seu amor – um princípio central ao Universalismo. O credo de 1878 afirma que o atributo da justiça de Deus “nasce do amor e é limitado pelo amor”. Young afirma que Deus escolheu “o caminho da cruz onde a misericórdia triunfa sobre a justiça por causa do amor”, e que esta maneira é melhor do que se Deus tivesse que exercer justiça (pp. 164-65).

5) Existe um erro grave na maneira como Young retrata a Trindade. Ele afirma que toda a Trindade encarnou como o Filho de Deus, e que a Trindade toda foi crucificada (p. 99). Ambos, Jesus e Papai (Deus) levam as marcas da crucificação em suas mãos (contrariamente a Isaías 53.4-10). O erro de Young leva ao modalismo, ou seja, que Deus é único e às vezes assume as diferentes modalidades de Pai, Filho e Espírito Santo, uma heresia condenada pela igreja primitiva. Young também faz de Deus uma deusa; além disso, ele quebra o Segundo Mandamento ao dar a Deus, o Pai, a imagem de uma pessoa.

6) A reconciliação é efetiva para todos sem necessidade de exercerem a fé. Papai afirma que ele está reconciliado com o mundo todo, não apenas com aqueles que crêem (p. 192). Os credos do Universalismo, tanto o de 1878 quanto o de 1899, nunca mencionaram a fé.

7) Não existe um julgamento futuro. Deus nunca imporá Sua vontade sobre as pessoas, mesmo em Sua capacidade de julgar, pois isso seria contrário ao amor (p. 145). Deus se submete aos humanos e os humanos se submetem a Deus em um “círculo de relacionamentos”.

8) Todos são igualmente filhos de Deus e igualmente amados por ele (pp. 155-56). Numa futura revolução de “amor e bondade”, todas as pessoas, por causa do amor, confessarão a Jesus como Senhor (p. 248).

Folhetos Personalizados

9) A instituição da Igreja é rejeitada como sendo diabólica. Jesus afirma que Ele “nunca criou e nunca criará” instituições (p. 178). As igrejas evangélicas são um obstáculo ao universalismo.

10) Finalmente, a Bíblia não é levada em consideração nesse romance. É um livro sobre culpa e não sobre esperança, encorajamento e revelação.

Logo no início desta resenha, fiz uma pergunta: “Será que um trabalho de ficção precisa ser doutrinariamente correto?” Neste caso a resposta é sim, pois Young é deliberadamente teológico. A ficção serve à teologia, e não vice-versa. Outra pergunta é: “Os pontos positivos do romance não superam os pontos negativos?” Novamente, se alguém usar a impureza doutrinária para ensinar como ser restaurado a Deus, o resultado final é que a pessoa não é restaurada da maneira bíblica ao Deus da Bíblia. Finalmente, pode-se perguntar: “Esse livro não poderia lançar os fundamentos para a busca de um relacionamento crescente com Deus com base na Bíblia?” Certamente, isso é possível. Mas, tendo em vista os erros, o potencial para o descaminho é tão grande quanto o potencial para o crescimento. Young não apresenta nenhuma orientação com relação ao crescimento espiritual. Ele não leva em consideração nem a Bíblia, nem a igreja institucional com suas ordenanças. Se alguém encontrar um relacionamento mais profundo com Deus que reflita a fidelidade bíblica, será a despeito de A Cabana e não por causa dela. (extraído de uma resenha de James B. De Young, Western Theological Seminary – The Berean Callhttp://www.chamada.com.br)

O Futuro Juízo de Deus

O Futuro Juízo de Deus

Thomas Ice

Exultai sobre ela [Babilônia], ó céus, e vós, santos, apóstolos e profetas, porque Deus contra ela julgou a vossa causa” (Ap 18.20).

Se, de fato, é justo para com Deus que ele dê em paga tribulação aos que vos atribulam e a vós outros, que sois atribulados, alívio juntamente conosco, quando do céu se manifestar o Senhor Jesus com os anjos do seu poder, em chama de fogo, tomando vingança contra os que não conhecem a Deus e contra os que não obedecem ao evangelho de nosso Senhor Jesus” (2Ts 1.6-8).

Recentemente, completei o ensino do Livro do Apocalipse.[1] Algo que realmente captou a minha atenção por todo o livro foi a ênfase nas criaturas de Deus que se regozijam e reconhecem a justiça do juízo de Deus durante toda a Tribulação e na Segunda Vinda. Por todo o Apocalipse existe um sentimento de que a intervenção do juízo de Deus na história, quando ela finalmente ocorre, já deveria ter acontecido há muito tempo. Entretanto, creio que muitos de nós freqüentemente consideramos triste o futuro juízo de Deus sobre aqueles que receberão Seus severos golpes. Mas esta não é a atitude defendida no céu quando aos crentes é declarado que se regozijem, em Apocalipse 18.20.

O Juízo Futuro

O apóstolo Paulo começa sua terceira epístola, a saber, a Segunda Carta aos Tessalonicenses, falando também do futuro juízo. O contexto, como em Apocalipse, é o da perseguição de seus companheiros crentes no Senhor Jesus Cristo. Diz Paulo: “Nós mesmos nos gloriamos de vós nas igrejas de Deus, à vista de vossa constância e fé, em todas as vossas perseguições e nas tribulações que suportais” (2Ts 1.4). Estes gregos crentes estavam sofrendo por causa de sua fé, dois mil anos atrás, nas mãos dos incrédulos; todavia, eles eram fiéis ao Senhor em suportarem essas aflições. Esta passagem nos ensina que tal perseguição pelos incrédulos será, no mínimo, parte da base do futuro julgamento vindo de Deus. “Resistir a pressões presentes demonstra a justiça do futuro juízo de Deus”.[2]

F. F. Bruce faz eco a este pensamento: “O fato de que eles estejam suportando perseguição e aflição por amor a Cristo é uma prova segura do justo juízo de Deus, que será vindicado neles e em seus perseguidores no Advento de Cristo”.[3] J. N. Darby observa corretamente que o juízo para os incrédulos estava chegando: “‘O dia do Senhor’ estava vindo do Senhor em juízo; mas Ele não estava voltando para fazer os dEle sofrerem – era para punir os perversos”.[4] Isto estabelece o cenário para o capítulo dois, quando Paulo argumenta que o dia do Senhor ainda não havia vindo.

Folhetos Personalizados

Paulo continua no versículo 6 ao observar que a justiça retribuidora é necessária quando Deus [dá] “em paga tribulação aos que vos atribulam” (2Ts 1.6). A mesma raiz da palavra na língua grega é usada em suas formas verbal e nominal. “Tribulação” (ou aflição) é a forma substantiva enquanto que “atribulam” (ou afligem) é a forma verbal usada como uma partícula substantivada. A forma substantivada desta raiz é a palavra usada no Novo Testamento para o termo “tribulação” e poderia ser uma referência àquele período de sete anos da história. Robert Thomas observa:

Thlipsin é uma palavra geralmente traduzida por “tribulação”. É a sina atual dos cristãos passarem por tribulações (v. 4; 1Ts 3.4). Para o restante do mundo, entretanto, a tribulação será futura e muito maior em intensidade (Mt 24.21; cf. Ap 3.10). Em sua primeira epístola à Igreja de Tessalônica, Paulo descreveu esse período em relação à sua fonte – isto é, a ira de Deus (1Ts 1.10; 1Ts 2.16; 1Ts 5.9). Mas aqui ele fala do ponto de vista das circunstâncias que tragam as vítimas.

Depois que o período de tribulação tiver passado, será negada, a esses causadores de problemas, a entrada no reino messiânico, o qual acolheu os fiéis seguidores de Cristo (v.5; Mt 25.41,46).[5]

No versículo 7, que fala da Segunda Vinda como trazendo alívio, vemos uma conexão com Apocalipse 18.20 e o regozijo da criação de Deus uma vez que Ele já julgou a maldade. Vemos dois objetos de Sua ira no versículo 8: primeiro, “os que não conhecem a Deus” e, segundo, “os que não obedecem ao evangelho de nosso Senhor Jesus”. Estas são as fontes de perseguição para os crentes da presente era da Igreja, mas o Arrebatamento da Igreja trará alívio para todo o corpo de crentes da era da Igreja, o que também resultará no derramamento da ira de Deus sobre os que rejeitarem o Evangelho.

Os incrédulos não experimentarão apenas a ira de Deus durante a Tribulação, pois o versículo 9 nos diz que eles também “sofrerão penalidade de eterna destruição, banidos da face do Senhor e da glória do seu poder”. “É irônico que aqueles que rejeitarem a Deus receberão como punição a rejeição de Deus”, considera Michael Martin. “Isto implica em que a chamada liberdade da influência de Deus, que os rebeldes desejam, não é liberdade, mas condenação. É um banimento infernal da única e verdadeira fonte de bondade e bênção”.[6] No versículo 10, vemos que a Segunda Vinda de Cristo não apenas revelará a glória de Deus, mas servirá para Ele “ser glorificado nos seus santos e ser admirado em todos os que creram”. Esta mesma resposta é o que vemos no Apocalipse quando o céu, ou seja, anjos e crentes, maravilha-se e se regozija pelo julgamento dos habitantes da terra e pela elevação do Senhor Jesus Cristo a Seu lugar de direito para governar.

O Julgamento é Realizado pelo Filho

Em João 5.22-23a, Jesus nos diz: “E o Pai a ninguém julga, mas ao Filho confiou todo julgamento, a fim de que todos honrem o Filho do modo por que honram o Pai”. Esta passagem revela que, embora o Filho será o agente do julgamento na história, dentro das funções das Pessoas da Trindade, o Filho e o Pai têm o mesmo padrão de justiça porque eles são o mesmo Deus. Jesus continua, dizendo: “Porque assim como o Pai tem vida em si mesmo, também concedeu ao Filho ter vida em si mesmo. E lhe deu autoridade para julgar, porque é o Filho do Homem” (Jo 5.26-27). Jesus, que é o Filho do Pai dentro da Trindade, também é o Filho do Homem e relacionado com a humanidade. Assim, como Deus-Homem, Jesus será o agente julgando a humanidade porque Ele é tanto Deus quanto Homem. Portanto, Ele será capaz de avaliar a humanidade com perfeita justiça.

Romanos 12.19 diz: “Não vos vingueis a vós mesmos, amados, mas dai lugar à ira; porque está escrito: A mim me pertence a vingança; eu é que retribuirei, diz o Senhor”. Paulo cita Deuteronômio 32.35 nesta passagem. Moisés diz no versículo seguinte: “Porque o Senhor fará justiça ao seu povo e se compadecerá dos seus servos” (Dt 32.36). Tanto em favor de Israel quanto em favor da Igreja, o Senhor tomará vingança e o fará com justiça e retidão. Em Romanos, Paulo argumenta, no capítulo 13, que os crentes deveriam geralmente obedecer às autoridades civis, porque Deus estabeleceu o governo civil como Seu instrumento, através do qual Ele toma vingança nesse ínterim – entre o julgamento do Dilúvio e o julgamento em Sua Segunda Vinda. Este é um instrumento que Ele usa para refrear o mal até a Tribulação, quando o homem da iniqüidade liderar uma rebelião cooperada contra Deus, resultando em Sua direta intervenção por toda a Tribulação e culminando no Segundo Advento.

Conclusão

monumentoUm crente no Senhor Jesus Cristo não tem que se tornar amargo ou irritado por causa da injustiça que alguém possa ter cometido contra ele, porque o próprio Jesus um dia trará perfeita justiça a este mundo pecaminoso.

A Bíblia ensina que uma das maneiras através da qual podemos demonstrar nossa confiança em Deus e em Seu plano para a história é permitindo que Ele tome conta dos males que experimentamos durante toda a nossa vida no processo de servir ao nosso Salvador. Assim como a perseguição e, finalmente, a morte de Cristo foram tão erradas e injustas, tem havido milhões de injustiças semelhantes perpetradas contra o povo de Deus desde então; mesmo assim, devemos esperar pelo dia dEle, quando endireitará todos os erros e se vingará dos malvados. Isto não significa que, quando um crime é cometido contra um crente, a justiça por meio das autoridades civis não deva ser procurada. Deve! Contudo, com muita freqüência as autoridades se corrompem e devemos esperar que o Juiz do mundo inteiro coloque as coisas nos devidos lugares. A prova principal seria o erro de justiça cometido pelo governo civil na morte de Cristo.

Um dos pontos principais destas passagens que verificamos é que um crente no Senhor Jesus Cristo não tem que se tornar amargo ou irritado por causa da injustiça que alguém possa ter cometido contra ele, porque o próprio Jesus um dia trará perfeita justiça a este mundo pecaminoso. Ele endireitará todas as coisas. Em vez disso, quando nos fizerem mal ou nos perseguirem por causa de Cristo, poderemos responder com o amor e a graça que Deus em Cristo já nos mostrou na redenção. Temos oportunidade de mostrar-lhes o amor de Cristo. Diz Paulo: “Não te deixes vencer do mal, mas vence o mal com o bem” (Rm 12.21). Como fazemos isso? Como diz o versículo anterior, devemos ser gentis e benignos para com nossos inimigos, tentando satisfazer-lhes as necessidades. Que maravilhosa salvação temos em Cristo! Ele nos salvou enquanto éramos Seus inimigos e agora nós tratamos nossos inimigos da mesma maneira que Cristo já nos tratou. Maranata! (Thomas Ice – Pre-Trib Perspectives)

Notas:

  1. O download de uma gravação em MP3 pode ser feito no seguinte endereço: http://cbcomaha.org/sermons/ (em inglês).
  2. (Ênfase original) Robert L. Thomas, “2 Thessalonians” [2 Tessalonicenses], in Frank E. Gaebelein, ed., The Expositor’s Bible Commentary: Ephesians through Philemon [O Comentário Bíblico do Expositor: de Efésios a Filemon], Vol. 11 (Grand Rapids, MI: Zondervan, 1981), p. 308.
  3. F. F. Bruce, “1 and 2 Thessalonians” [1 e 2 Tessalonicenses], in David A. Hubbard, Glenn W. Barker, and Ralph P. Martin, eds. Word Biblical Commentary [Comentário Bíblico Word], Vol. 45 (Dallas: Word, 1998), p. 149.
  4. John Nelson Darby, “Colossians to Revelation” [Colossenses a Apocalipse], in Synopsis of the Books of the Bible [Sinopse dos Livros da Bíblia], 5 vols.,(Winschoten, Netherlands: H. L. Heijkoop, 1970), vol. 5; p. 115.
  5. Thomas, “1 and 2 Thessalonians”, p. 310.
  6. Michael D. Martin, 1, 2 Thessalonians: The New American Commentary [1 e 2 Tessalonicenses: O Novo Comentário Americano], Vol. 33 (Nashville: Broadman & Holman Publishers, 1995), pp. 213–14.

Cobra no Gramado!

Cobra no Gramado!

Lorna Simcox

Eu era relativamente nova na fé quando ouvi uma senhora idosa e sábia contar uma história que nunca vou esquecer. Ela tinha aparência abatida e mal-arrumada, efeito evidente de ter muitas bocas para alimentar e poucos recursos para fazê-lo. Seu marido era operário e ganhava pouco.

Alguns anos atrás, contou ela, foi oferecida a seu marido a oportunidade de ser pastor em uma região de que ela não gostava. Ele acreditava que deveriam aceitar o convite. Ela foi contra.

“Meu marido”, disse ela, “me ouviu. E desde então nossas vidas têm sido miseráveis”. Era a angustiante história da mãe Eva repetindo-se mais uma vez.

A influência de Eva sobre Adão começou cedo, e desde então tem mudado o curso da história humana. Logo depois que Adão e Eva caíram repentinamente em pecado, Deus amaldiçoou a serpente, o homem e sua mulher. Para a mulher, como castigo, Ele prometeu dores de parto e a colocou sob a liderança do homem: “o teu desejo será para teu marido, e ele te governará” (Gn 3.16). Essa única maldição provavelmente fez mais estrago entre os sexos do que todas as outras juntas. Ela instituiu um princípio bíblico que as feministas se empenham por destruir e as mulheres tementes a Deus se esforçam por obedecer, mesmo com dificuldades – a submissão ao marido. E ninguém está mais ciente da magnitude dessa batalha e a explora mais efetivamente que Satanás.

Entre todas as mulheres que já viveram, Eva foi única. Ela não nasceu, pois foi moldada por Deus a partir de uma costela de Adão no sexto dia da criação (Gn 2.18-25). Não teve infância, nem adolescência, nem pais ou amigos. Eva tinha apenas Adão.

Eva nem sequer possuía um nome até o momento em que Adão se referiu a ela. Primeiro, chamou-a genericamente de varoa, declarando: “Esta, afinal, é osso dos meus ossos e carne da minha carne; chamar-se-á varoa, porquanto do varão foi tomada” (Gn 2.23). Mais tarde, Adão deu-lhe o nome de Eva, significando “doadora de vida”, “por ser mãe de todos os seres humanos” (Gn 3.20).

Criada especificamente para Adão, o administrador humano do reino teocrático, Eva foi projetada para ser o maior bem de seu marido – sua fonte de conforto, sua auxiliadora e sua companheira por toda a vida. Ele, por sua vez, recebeu de Deus o cetro que lhe concedia poder e autoridade sobre toda a terra. Segundo o teólogo Renald Showers, “Deus criou o homem, colocou-o como administrador sobre a terra e incumbiu-o da responsabilidade de administrá-la adequadamente para o Senhor”.1

Porém, Adão falhou diante de sua responsabilidade. Em meio às circunstâncias idílicas em que vivia, uma serpente estava à espreita no gramado. Satanás queria o reino de Deus para si mesmo. Como lhe faltava o poder de criar, a única forma de consegui-lo era por usurpação. Isso somente seria possível através de Adão. E para chegar a Adão, ele usou Eva. As Escrituras revelam que Satanás falou exclusivamente com ela: “Mas a serpente, mais sagaz que todos os animais selváticos que o Senhor Deus tinha feito, disse à mulher: É assim que Deus disse…?” (Gn 3.1).

Nova Chamada

Evidentemente Satanás pensava que Eva era a vítima mais frágil, e manipulou a esposa para alcançar o marido. Eva comeu do fruto proibido e depois ofereceu-o a Adão, que estava com ela. Adão comeu, e desde então a humanidade tem experimentado o gosto amargo das conseqüências de seu pecado: “Portanto, assim como por um só homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado, a morte, assim também a morte passou a todos os homens, porque todos pecaram” (Rm 5.12).

Satanás arrancou das mãos de Adão o controle sobre o Reino, causando divisão entre homem e mulher.

Já que Adão estava com Eva, por que não a impediu? Ele não apenas falhou diante de sua responsabilidade, concedida pelo Senhor, de proteger sua esposa, mas igualmente desobedeceu e comeu do fruto. Imediatamente o pecado tomou conta e jogou Adão contra Eva. Quando Deus perguntou a Adão: “Comeste da árvore de que te ordenei que não comesses?” (Gn 3.11), Adão culpou Eva. Ele havia chamado-a de “osso dos meus ossos”, e agora dizia: “A mulher que me deste por esposa, ela me deu da árvore, e eu comi” (Gn 3.12). Foi assim que Satanás arrancou das mãos de Adão o controle sobre o Reino, e teve sucesso causando divisão entre homem e mulher. Aparentemente Eva confiou e acreditou ingenuamente na mentira de Satanás. Mas Adão não teve a força de caráter para insistir no que ele sabia ser o certo (1 Tm 2.14).

Quantas vezes essa mesma cena se repete hoje em muitos lares? Eva foi formada depois de Adão e foi enganada. Por isso Deus ordenou que o homem ocupasse a posição de liderança espiritual dentro de seu lar e na Igreja (1 Tm 2.11-14).

Desde então, Satanás continua à espreita, como uma serpente no gramado, tentando criar o caos e atacando a ordem divina. Sua tática não tem mudado através dos milênios. Ele é mestre em causar divisão e em conquistar os corações humanos através do apelo à auto-indulgência (concupiscência da carne), da auto-satisfação (concupiscência dos olhos) e da auto-estima (soberba da vida). Eva foi a primeira pessoa que ele fisgou. Mas desde então a humanidade também tem mordido a isca satânica.

Se homens e mulheres disputam a supremacia, Satanás está tendo êxito em seu intento, causando rivalidade, divisão, instabilidade e confusão. E como o mundo continua degenerando espiritualmente, homens e mulheres de Deus, mais do que nunca, precisam viver dentro dos parâmetros que Ele estabeleceu para cada um deles. Esposas devem ser submissas a seus maridos (Ef 5.22); maridos devem assumir a responsabilidade de serem líderes, atentando à Palavra de Deus e posicionando-se com integridade ao lado do que é correto. Assim será mais difícil Satanás se esgueirar por debaixo da porta; assim será mais difícil a serpente entrar em nossos lares. (Lorna Simcox — Israel My Glory)

Nota:

  1. Renald Showers, What on Earth Is God Doing, Loizeaux Brothers.

Vencendo a Paralisia Espiritual

Vencendo a Paralisia Espiritual

Thomas C. Simcox

Todo mundo enfrenta algum tipo de luta na vida. Mesmo quando procuramos seguir o Senhor, surgem problemas e dores de cabeça. Grandes e profundos vales de tristeza e dor nos trazem desânimo e medo. Oramos e buscamos a orientação e a ajuda do Senhor, sem percebermos que, na maioria das vezes, não conseguimos enxergar todo o quadro que está adiante de nós. Nós vemos a vida a partir de uma perspectiva humana limitada – e, portanto, distorcida – enquanto o Senhor vê as coisas de um ponto de vista totalmente diferente. Conseqüentemente, nossa visão é deturpada. Essa situação leva, muitas vezes, a uma espécie de mal-estar espiritual – uma paralisia espiritual – que pode nos impedir de servir nosso Deus de modo eficaz.

Procure ver além das aparências

Em Juízes 6.11, Gideão, o homem que Deus escolheu para livrar Israel de seus problemas, “estava malhando o trigo no lagar, para o pôr a salvo dos midianitas”. Israel estava novamente debaixo de opressão, desta vez por parte da terra de Midiã, localizada a leste da Península do Sinai.

Os midianitas eram descendentes de Midiã, o quarto filho de Abraão. Sua mãe era Quetura (Gn 25.1-5). De acordo com o Dr. Henry M. Morris, “dos seis filhos de Quetura (todos eles nascidos, provavelmente, no início do período de trinta e cinco anos em que Abraão viveu com ela), Midiã é o único cujos descendentes, os midianitas, são bem identificados. Os outros provavelmente se misturaram com os vários descendentes de Ismael, Ló e Esaú, formando os atuais povos árabes. Abraão enviou-os ‘para a terra oriental’ (Gn 25.6) com presentes para iniciarem suas próprias tribos, e isso corresponderia à Arábia”.1

Midiã também é a região geográfica onde Moisés morou quando fugiu do Egito, em Êxodo 2.15-22. Foi lá que ele se casou com Zípora e cuidou dos rebanhos de seu sogro, Jetro.

Os israelitas encontraram-se com os midianitas quando vagavam pelo deserto. Eles se enfrentaram e Israel quase os destruiu completamente (Nm 31.1-20). Existia inimizade entre essas nações. Agora a maré tinha mudado, e Israel estava debaixo da opressão de Midiã.

Então, veio o Anjo do Senhor, e assentou-se debaixo do carvalho […] e lhe disse: O Senhor é contigo, homem valente” (Jz 6.11-12).

A resposta de Gideão foi rápida e afiada: “Ai, senhor meu! Se o Senhor é conosco, por que nos sobreveio tudo isto? E que é feito de todas as suas maravilhas que nossos pais nos contaram […]? Porém, agora, o Senhor nos desamparou e nos entregou nas mãos dos midianitas” (v. 13).

Do ponto de vista de Gideão, o Senhor tinha falhado com Seu povo. Que outra razão poderia haver para [os israelitas] estarem debaixo da opressão de Midiã? Que outra explicação poderia haver para o fato de Gideão ter que malhar o trigo naquele lugar tão vergonhoso e precisar esconder o cereal de seus opressores? Obviamente, pensava ele, o Senhor nos abandonou. Para Gideão, o Senhor estava em falta para com Seu povo.

O ato de malhar ou cirandar o cereal numa peneira serve para separar o grão da palha, as cascas inúteis que envolvem a semente propriamente dita.

Nesse aspecto, ele era bem parecido conosco. Quando enfrentamos águas profundas e situações horríveis, muitas vezes culpamos a Deus, achando que, de alguma forma, Ele nos deixou na mão ou não cumpriu Sua promessa de jamais nos abandonar. Ficaríamos surpresos com a rapidez com que mudaríamos de idéia se pudéssemos ver as circunstâncias em que nos encontramos, sob o ponto de vista de Deus.

Um pouco antes, ainda em Juízes 6, o Senhor revelou por que Israel sofria tanto e por que os midianitas pilhavam suas colheitas: “Fizeram os filhos de Israel o que era mau perante o Senhor; por isso, o Senhor os entregou nas mãos dos midianitas por sete anos” (v. 1). Deus não tinha falhado com Seu povo; este é que tinha pecado e se afastado dEle, e estava sofrendo as conseqüências. Gideão tinha interpretado mal a sua situação. Embora às vezes possa parecer que o Senhor nos abandonou, a realidade é muito diferente. Às vezes, sofremos por causa do pecado. Outras vezes, Deus usa as circunstâncias para nos proteger ou nos dar um testemunho para que possamos glorificá-lo. Não importa qual seja a situação, precisamos olhar além das aparências e nos lembrar de que Deus nunca abandona os que são Seus; e Ele nunca é injusto.

Nova Chamada

Reavalie seus recursos

O Anjo do Senhor, que é uma aparição pré-encarnada do Senhor Jesus, identificou Gideão como um “homem valente” (v. 12). Será que um homem destemido e corajoso malharia sua colheita num vale, ao invés de no topo de uma montanha, como tradicionalmente se fazia?

O ato de malhar ou cirandar o cereal numa peneira serve para separar o grão da palha, as cascas inúteis que envolvem a semente propriamente dita. No alto de uma montanha, o vento sopra as cascas para longe, enquanto os grãos caem no chão. O platô elevado do Monte do Templo, por exemplo, era originalmente a eira de Ornã, o jebuseu – o local onde ele cirandava o trigo (1 Cr 21.18).

Gideão, esse “homem valente”, estava se escondendo porque ainda não tinha percebido com quem estava falando. “Então, se virou o Senhor para ele e disse: Vai nessa tua força e livra Israel da mão dos midianitas; porventura, não te enviei eu?” (Jz 6.14).

O Senhor disse ao Seu servo escolhido para ir e liderar Israel na luta contra o seu inimigo. Ele também lhe deu a chave para cumprir essa tarefa: “Porventura, não te enviei eu?” O próprio Senhor tinha comissionado Gideão. Se somos filhos de Deus pela fé, Ele também nos comissionou e ordenou que fizéssemos certas coisas. O Senhor muitas vezes escolhe um servo relutante como Gideão. Do mesmo modo que Moisés havia feito antes dele, Gideão tentou rejeitar a orientação de Deus para sua vida.

Quantas vezes temos um comportamento semelhante! Por exemplo, sabemos que há alguma necessidade específica na nossa igreja local, mas nos sentimos inadequados para a tarefa. Precisamos reavaliar nossos recursos e nos lembrar de que Deus nos deu dons espirituais para o Seu serviço.

A resposta de Gideão foi clara: “Ai, Senhor meu! Com que livrarei Israel? Eis que a minha família é a mais pobre em Manassés, e eu, o menor na casa de meu pai” (v. 15). Ele estava dizendo: “Não sou digno dessa tarefa. Não sou famoso, e sou insignificante demais para fazer o que Tu estás pedindo”.

É interessante observar que Gideão usou a palavra Adonai quando falou com o Anjo do Senhor. Adonai é um dos nomes de Deus encontrados nas Escrituras hebraicas. Pode ser traduzida como “amo”. Se o Senhor é o nosso “Amo”, então Ele tem todo o direito de exigir obediência absoluta a todas as Suas ordens. E Seus servos podem esperar que Ele forneça toda a assistência necessária para que a tarefa seja realizada.

O apóstolo Paulo entendeu bem esse conceito, que exprimiu, sob a inspiração do Espírito Santo, num dos mais poderosos versículos do Novo Testamento: “Tudo posso naquele que me fortalece” (Fp 4.13). A obra de Deus é feita através do poder de Deus. Nós não contamos com nossos próprios recursos; contamos com os recursos dEle. Esse poder estava à disposição de Gideão. O visitante angelical assegurou-lhe: “Já que eu estou contigo, ferirás os midianitas” (v. 16).

Confie em Deus

Apesar dessas garantias, Gideão ainda estava inseguro. Parece que ele duvidou dAquele que estava de pé na sua frente, e não confiou inteiramente nEle. Talvez ele não estivesse percebendo que era o Deus dos céus e da terra que o estava comissionando e prometendo-lhe a vitória.

Então, Gideão pediu um sinal ao Anjo do Senhor: “Se, agora, achei mercê diante dos teus olhos, dá-me um sinal de que és tu, Senhor, que me falas” (v. 17). Ele pediu a seu visitante que esperasse enquanto ele preparava um sacrifício e o colocava diante dEle (v. 18). Isso deve ter levado tempo, já que ele tinha que matar o cabrito, tirar-lhe o couro, cozinhá-lo e assar os pães asmos. Quando sua oferta estava pronta, “trouxe-lho até debaixo do carvalho e lho apresentou” (v. 19).

Estendeu o Anjo do Senhor a ponta do cajado que trazia na mão e tocou a carne e os bolos asmos; então, subiu fogo da penha e consumiu a carne e os bolos; e o Anjo do Senhor desapareceu de sua presença” (v. 21).

Foi então que Gideão finalmente percebeu que tinha estado na santa presença do Senhor: “Ai de mim, Senhor Deus! Pois vi o Anjo do Senhor face a face” (v. 22). Ele deve ter achado que ia morrer, porque o Senhor lhe garantiu: “Paz seja contigo! Não temas! Não morrerás!” (v. 23). O servo respondeu a seu Amo construindo um altar, que chamou de “O Senhor É Paz [Yahweh Shalom]” (v. 24).

Assim como Gideão, nós muitas vezes não confiamos no chamado de Deus para nossa vida. Porém, Provérbios nos ensina: “Confia no Senhor de todo o teu coração e não te estribes no teu próprio entendimento. Reconhece-o em todos os teus caminhos, e ele endireitará as tuas veredas” (Pv 3.5-6). O Novo Testamento também nos exorta a confiar no Senhor quando Ele nos chamar para o Seu serviço: “Fiel é o que vos chama, o qual também o fará” (1 Ts 5.24). Se o Senhor tem uma missão para você, então pode confiar que Ele lhe dará tudo o que for necessário para possibilitar-lhe seguir Suas instruções.

O Senhor foi fiel a Gideão, que, mais uma vez, questionou Seu Amo pedindo-lhe um outro sinal, dessa vez utilizando porções de lã. Gideão colocou um pedaço de lã no chão do lagar e disse a Deus: “Se hás de livrar a Israel por meu intermédio, como disseste”, faz com que, pela manhã, a lã esteja molhada e o chão seco. “E assim sucedeu” (vv. 36-38).

Então, ele pediu o contrário: chão molhado e lã seca. “E Deus assim o fez naquela noite” (v. 40). Gideão finalmente estava pronto para atacar os midianitas.

Porém, o Senhor queria deixar bem claro que a vitória pertencia somente a Ele. Então, reduziu o tamanho do exército de Israel de 32.000 para 300 homens. Primeiro, Ele mandou de volta para casa os medrosos (Jz 7.3); depois, dispensou mais homens, baseando-se no modo como bebiam água na margem.

“Confia no Senhor de todo o teu coração e não te estribes no teu próprio entendimento. Reconhece-o em todos os teus caminhos, e ele endireitará as tuas veredas” (Pv 3.5-6).

Assim, Gideão e seu inacreditável bando de 300 homens aniquilaram guerreiros que “cobriam o vale como gafanhotos em multidão; e eram os seus camelos em multidão inumerável como a areia que há na praia do mar” (v. 12). E Gideão libertou Israel, como Deus tinha prometido.

O Senhor que auxiliou Gideão e seus homens há mais de 3.000 anos é o mesmo que hoje sustenta, protege, defende e capacita Seus servos. Ele não mudou, nem jamais mudará: “Porque eu, o Senhor, não mudo” (Ml 3.6); “Jesus Cristo, ontem e hoje, é o mesmo e o será para sempre” (Hb 13.8).

Precisamos nos lembrar de que a perspectiva de Deus é a perspectiva certa. E a melhor maneira de vencer a paralisia espiritual é manter nossos olhos firmemente fixos nEle, e correr a carreira que está diante de nós, “olhando firmemente para o Autor e Consumador da fé, Jesus” (Hb 12.2). (Israel My Glory)

Thomas C. Simcox é diretor de The Friends of Israel para os Estados do Nordeste dos EUA.

Nota:

1. Dr. Henry M. Morris, citado em: Paul S. Taylor, “Midian”. Disponível em: www.christiananswers.net/dictionary/midian.html.