“Seca-se a erva e caem as flores, mas a palavra de nosso Deus subsiste eternamente” (Isaías 40:8).

 

O triste significado atual de “evangélico”

O triste significado atual de “evangélico”
“Pois chegou a hora de começar o julgamento pela casa de Deus…” (1Pedro 4.17)

“Evangélico” era a definição que identificava cristãos fiéis à Bíblia, que levavam a sério a Palavra de Deus no ensino e no viver, sem supressões ou acréscimos. Hoje, porém, o termo infelizmente se tornou inconsistente. Numa época em que seria necessária uma oposição especial ao espírito anticristão da época, muitos evangélicos estão em litígio recíproco, infiltrados, mundanizados, contemporizados, fracos na fé, desanimados e debilitados. As discussões, cisões e escândalos dos últimos tempos são provas suficientes. O único satisfeito com essa situação é o Diabo, ao qual resta “pouco tempo” (Apocalipse 12.12) e espera que o reinado do Anticristo se desenvolva possivelmente sem entraves. Aqui estão alguns exemplos dessa triste situação, que esperamos que seja revertida. Em muitos círculos e comunidades de cristãos encontramos:

a substituição de uma postura bíblica consistente por sistemas contrários à Bíblia e afirmações abertas ou adaptadas para, por exemplo, a relativização das doutrinas bíblicas da Criação, igreja e sobre o fim dos tempos;

a introdução de enganos do humanismo, feminismo, evolucionismo e outros “ismos”;

a relativização ou inobservância de padrões éticos bíblicos, referentes a, por exemplo, concubinato, divórcio com base em mera “desordem”; opiniões, moda e estilo musical mundano;

a falta de disciplina na igreja em caso de pecados crassos e falsas doutrinas que destroem a igreja;

a ascendência do “eu” (mesmo o “eu piedoso”), com seus “privilégios” em relação à majestade e santidade de Deus;

a substituição de verdadeiro discipulado bíblico de confissão de pecados, arrependimento e perdão por métodos de psicologia humanista;

a prática da “cultura do entretenimento” nas igrejas com shows, festas e jogos de diversão;

a mercantilização do evangelho por meio de eventos agressivos de divulgação de editoras, altos cachês para artistas, além de “pregações de arrecadação” desleais, manipuladas e incisivas;

a apresentação de um evangelho de “bem-estar” e de “prosperidade”;

a substituição do ensino bíblico por uma “cultura romântica” superficial;

o crescente prejuízo do teor bíblico e da profundidade doutrinária em favor de experiências e necessidades humanas em muitos novos hinos cristãos;

a crescente omissão com relação a temas bíblicos básicos como “pecado”, “arrependimento”, “cruz”, “seriedade do discipulado”, “inferno” e “perdição eterna”;

a antiga ênfase para o amor e “ternura” de Deus em relação à santidade e à seriedade de seu juízo;

a substituição do espírito bíblico de confissão e resistência por uma busca errônea de unidade e harmonia;

a total falta de ênfase da apologética bíblica (doutrina sobre identificação dos espíritos ou defesa da fé);

a crescente abertura para um ecumenismo de denominações (em parte também de religiões), existente inclusive entre alguns líderes evangélicos;

a ridicularização de irmãos que desejam se manter firmes aos claros padrões da Escritura Sagrada, rotulando-os de “limitados”, “legalistas” e “antiquados”.

Certamente isso – graças a Deus – não acontece em todas as igrejas “evangélicas”. No entanto, a pergunta deve ser feita: será que os cristãos que “valorizam” uma vida cristã tão pobre e superficial estão aptos a enfrentar o Anticristo e os seus precursores? Temo que não, e por isso mencionarei no próximo texto alguns critérios para uma vida cristã resiliente e preparada para o fim dos tempos.

Como orar pelo novo presidente?


Como orar pelo novo presidente?
Daniel Lima

O novo presidente assumiu com grande apoio e grande oposição. Não importa se você elegeu ou não este governante, somos chamados a orar por nossos governantes (1Timóteo 2.1-2). Como orar por este novo governo? E, ao mesmo tempo, como orar por nós mesmos diante deste novo ano?

Ano novo, vida nova… será? Como muitos (quase todos os) brasileiros, passei o momento da virada do ano com família e amigos. Compartilhamos sobre o conceito do “sopro de Deus” em nossa vida no ano que terminava. Não pude assistir a posse do novo governo, mas nos dias seguintes li ataques daqueles que veem evidências da perversidade do novo presidente. Sinceramente, não consigo perceber aquilo que eles veem com tanta clareza. Fiquei igualmente triste ao ler elogios de um nível quase messiânico ao novo presidente. Tampouco consigo ter o mesmo nível de certeza de que devo colocar sobre ele toda a minha esperança.

Pessoalmente, resisto a um culto da personalidade deste ou de qualquer outro governante. Este anseio por um caudilho, esta esperança lançada sobre um governante que vai, por força de seus talentos, personalidade ou mesmo “chamado divino” resolver todos os meus problemas, aponta quão equivocados, superficiais e mesmo facilmente manipuláveis nós somos. Qualquer avanço nosso como nação só vai ocorrer por meio da intervenção divina e muito esforço e sacrifício coletivos e individuais. Ao contrário de uma atitude popular que já foi chamada de sebastianismo, Dom Sebastião não voltará da Batalha de Alcácer-Quibir para nos libertar do jugo espanhol. Em última análise, como cristão que busca compreender e viver a partir da Bíblia, minha esperança tanto pessoal quanto para meu país está em um relacionamento íntimo e pessoal com o Senhor Jesus. No entanto, torço por este governo e vou orar por ele como orei pelos outros. Tenho uma pitada de esperança por ventos que parecem diferentes (ênfase no “parecem”). Embora esperançoso, lembro-me do texto do Salmo 146.3-4:

3Não confiem em príncipes, em meros mortais, incapazes de salvar. 4Quando o espírito deles se vai, eles voltam ao pó; naquele mesmo dia acabam-se os seus planos.

Dizem que muitas batalhas foram perdidas pois os generais perderam o momento oportuno. Por temor ou falta de perspicácia, por falta de informações ou arrogância, estes comandantes deixavam passar o momento em que poderiam fazer os eventos mudar de curso. Com frequência, quando se deram conta do erro, o tempo havia passado. Com certeza nosso presidente vive um momento assim. Para usar uma analogia do futebol: é a final do campeonato, o adversário vence por um gol e o relógio marca 45 minutos do segundo tempo, o goleiro está caído, o artilheiro tem a bola nos pés na entrada da área. Um gol pode levar o jogo para a prorrogação, dando ao seu time a chance da vitória; um chute para fora encerra a partida e todas as esperanças, fazendo com que a longa campanha se torne apenas mais um “poderia ter sido”.

O que separa nosso presidente de fazer diferença positivamente ou de ser apenas mais um “poderia ter sido”? Para mim é o mesmo que separa cada um de nós de realizar a obra de Deus para sua glória ou ser mais um “poderia ter sido”. O ano começa para o governo, mas também para cada um de nós. Não há nada de mágico no início de ano, mas cremos num Deus da renovação, onde cada momento pode ser um reinício. Ao mesmo tempo, cada oportunidade perdida traz consigo consequências. Este é um momento chave, o governo tem a confiança (talvez exagerada) de mais da metade da nação. O que a Bíblia tem a dizer para o presidente e para cada um de nós sobre começar bem, sobre aproveitar as oportunidades?

O ano começa para o governo, mas também para cada um de nós. Não há nada de mágico no início de ano, mas cremos num Deus da renovação, onde cada momento pode ser um reinício.
Para todo aquele que conhece a Palavra, a expressão aproveitar as oportunidades nos faz pensar em Efésios 5.15-17:

15Tenham cuidado com a maneira como vocês vivem; que não seja como insensatos, mas como sábios, 16aproveitando ao máximo cada oportunidade, porque os dias são maus. 17Portanto, não sejam insensatos, mas procurem compreender qual é a vontade do Senhor.

O tema de Paulo é como viver uma vida de acordo com a nova e radical realidade de sermos novas criaturas. O argumento para o início do governo de nosso presidente, mas também para nós, é que sejamos sábios e não tolos. O conceito é bastante comum, embora o ser sábio ainda seja mais uma arte do que uma ciência. A NVI traduz o termo chave como “a maneira como vocês vivem”. É uma excelente tradução, mas o original fala apenas de ter cuidado como “andam”. Desta forma a tradução perde um aspecto da herança judaica que Paulo destaca. A vida para os judeus era muito prática, e seguir a Deus não ficava circunscrito a discursos e teorias. Seguir a Deus tratava-se de vida prática. Por isso Paulo usa um termo tão corriqueiro. Cuidado como você anda, e não apenas cuidado com seus pensamentos ou ideias.

No caso do novo governo, importa mais o dia a dia do que os discursos, pois estes têm sido e serão dilacerados e distorcidos pelos opositores. A verdadeira prova é como será o dia a dia. Como serão tratadas as acusações de corrupção? Onde serão alocados os recursos, como será tratada a incômoda oposição, como serão tratados os sem voz… Na nossa vida, o que Paulo está tratando é do nosso dia a dia e não nossos discursos entre amigos, na igreja ou na rede social. Postar versículos e tratar mal as pessoas ao seu redor é justamente o que faz cristãos terem uma fama tão ruim.

A partir do texto entendemos que temos, sim, uma escolha: viver como sábios ou como tolos! O que significa viver como sábio? Se pudéssemos dar uns conselhos ao novo presidente, quais seriam? Há no texto pelo menos duas sugestões muito concretas e que servem tanto para nosso presidente como para cada um de nós: (1) aproveite as oportunidades e (2) procure compreender a vontade de Deus.

Aproveite as oportunidades
A campanha terminou, o cargo já lhe foi entregue. O tempo dos discursos bombásticos já passou. As palavras de ordem têm um efeito de curta duração. O ministério está montado, o congresso lhe é favorável, um enorme poder lhe foi atribuído. Este é o momento, esta é sua oportunidade. A oposição está preparada para acusar qualquer movimento seu, seja benéfico ou não à nação. Seus apoiadores, por sua vez, estão com os louvores já ensaiados para suas excelentes decisões. O momento é de aproveitar a oportunidade para fazer o bem, para realmente caminhar em uma nova direção. Não se espera milagres (bem, talvez alguns esperem), mas eu espero passos acertados, decisões justas, capacidade de integrar uma nação fragmentada. Capacidade de ouvir sem perder seu rumo. A integridade de confrontar o erro em qualquer canto onde seja descoberto. Esta é sua oportunidade. Estamos aguardando, uns com certeza de seu fracasso, outros já comemorando seus acertos. Imagino que, como eu, a grande maioria esteja esperando com expectativa que algo melhore, e receio de que tudo se torne mais uma esperança perdida.

O mesmo praticamente pode ser dito de cada um de nós que segue a Jesus. Todas a benções espirituais já nos foram concedidas (Efésios 1.3). Temos o Senhor Jesus do nosso lado. Nossos pecados já foram perdoados, muito embora ainda tenhamos que enfrentar algumas das consequências. O que faremos com este ano, com este dia, com o resto de nossas vidas? Que farei com aquela amizade que nunca restaurei? O que farei com aquela palavra dura que proferi? O que farei com aquela pessoa que me buscou? O que farei com o novo ministério que me foi oferecido? O que farei com este dom da vida que me é concedido? Assim como o presidente, o que se espera de nós é que vivamos com justiça, com amor, com integridade e compaixão.

Como pano de fundo desta exortação Paulo nos lembra que os dias são maus. O resumo é que os tempos são difíceis e oportunidades passam. Em Cristo sempre há um recomeço, mas o momento perdido não volta mais. Aquele momento em que eu podia fazer a diferença para Deus não volta mais. Pela graça dele, outros virão, mas o tempo não volta atrás.

Procure compreender a vontade de Deus
Neste ponto eu confesso que minha convicção é que aquilo de melhor que um governante pode fazer é buscar a vontade de Deus, pois minha perspectiva é que Deus tem o melhor tanto para o que crê como para quem não crê. Um aborto não é ruim somente para um crente e bom para o não crente. A única diferença é a opinião pessoal, mas o Criador dos céus e da Terra já definiu o que é bom e o que é mau. A Palavra afirma que todos vamos prestar contas e que “de Deus não se zomba” (Gálatas 6.7). Qualquer pessoa que semear os valores de Deus será abençoada e qualquer um que semear valores contrários ao reino colherá destruição.

Quem já teve de cortar despesas em casa devido a um aperto no orçamento sabe como estas decisões são complexas e raramente agradam a todos.
O novo presidente é o governante de todos os brasileiros. Tanto dos que o elegeram como daqueles que avaliam sua eleição como a maior tragédia das últimas décadas. É seu papel buscar o bem de todos. Neste ponto, me confesso talvez pouco democrático… Não creio que a voz do povo é a voz de Deus. Creio que uma virada no nosso país só será possível se decisões difíceis e impopulares forem tomadas. Quem já teve de cortar despesas em casa devido a um aperto no orçamento sabe como estas decisões são complexas e raramente agradam a todos.

O que a Palavra tem a dizer ao nosso presidente e, por princípio, também a nós? Sou levado rapidamente ao texto de Romanos 14.17-18:

17Pois o Reino de Deus não é comida nem bebida, mas justiça, paz e alegria no Espírito Santo; 18aquele que assim serve a Cristo é agradável a Deus e aprovado pelos homens.

A definição mais simples da expressão “Reino de Deus” é o âmbito onde sua vontade é realizada, onde seu governo não é contestado. Assim, meus conselhos ao novo presidente seriam três: justiça, paz e alegria.

Saldao
Oro para que este governo seja justo. Com isso não estou falando meramente de nosso sistema judiciário, mas de ações corretas, decisões que honrem a verdade, defendam os mais fracos, promovam a responsabilidade pessoal e social. Oro para que os ímpios não prevaleçam e se enriqueçam às custas dos mais fracos. Oro para que a verdade, mesmo que desagradável, seja o destino que este governo busca. Oro para que privilégios, mesmo sendo legais do ponto de vista jurídico, mas abusivos em termos de justiça, sejam revistos.

Oro por você e por mim, para que nossa justiça pessoal ultrapasse em muito a dos fariseus. Que nossa vida pessoal, familiar, profissional etc. glorifique a Deus por estar alinhada com sua vontade. Oro para que aqueles que nos acusam por sermos cristãos fiquem sem argumentos ao observar a correção de nosso caminhar.

Oro para que este governo promova a paz. Não uma paz de conivências aos injustos, mas uma paz profunda, em que o povo possa sentir-se seguro. Onde a violência seja repreendida, onde a hostilidade não ganhe dividendos. Com isso não estou falando apenas do projeto do desarmamento, pois tenho assistido atitudes de extrema violência e hostilidade em ambientes totalmente desarmados. Oro por um governo que abandone a postura de campanha sem abandonar suas promessas de campanha. Oro por um governo que consiga aglutinar nossa nação tão diversa sob algumas bandeiras, que eu creio, todos defendem.

Oro por você e por mim, para que nossos corações estejam em paz. Oro para que nossos relacionamentos, naquilo que depender de nós, estejam em paz. Oro para que “a paz de Deus, que excede todo o entendimento”, guarde “o coração e a mente de vocês em Cristo Jesus” (Filipenses 4.7).

Oro por um governo que abandone a postura de campanha sem abandonar suas promessas de campanha.
Por fim, oro por alegria. Curiosamente, a expressão traduzida por alegria não se refere a uma alegria tumultuosa, como a de um estádio de futebol. Nos escritos de Paulo essa alegria está sempre conectada com a esperança que nos aguarda. Assim, a expressão poderia ser traduzida como contentamento ou satisfação. Oro, então, por um governo que, com base em um projeto de longo prazo (nenhum projeto que valha a pena será de curto prazo), sacrifique o agora pelos benefícios que virão. Oro por um governo que promova a satisfação, não de conquistas rápidas e passageiras, mas a satisfação de realmente construir um país diferente.

Oro mais uma vez por você e por mim, para que nós também estejamos satisfeitos e felizes com o que Deus nos tem dado. Oro para que o espírito consumista de nossa era não contamine tanto nossos coração a ponto de termos pastores e teólogos exigindo de Deus bens e posses. Oro para que sejamos marcados por contentamento, copiando a atitude do apóstolo Paulo: “Aprendi o segredo de viver contente em toda e qualquer situação, seja bem alimentado, seja com fome, tendo muito, ou passando necessidade” (Filipenses 4.12b).

O Poder do Exemplo

O Poder do Exemplo
Daniel Lima

Na última semana o país assistiu surpreso o senado aprovar – com extrema rapidez – o aumento salarial do Supremo Tribunal Federal (STF). A medida está agora na mesa do presidente da República aguardando aprovação ou veto. Para a grande maioria dos brasileiros, essa medida é no mínimo fora de hora. Não só concede mais um aumento aos ministros do STF, os quais custam mais caro que seus correspondentes europeus, por exemplo, mas obviamente, devido ao “efeito cascata”, ele concederá aumentos a milhares de outros cargos. É curioso que não chega a atingir necessariamente professores, policiais ou pessoas do sistema público de saúde. Infelizmente, como brasileiros estamos quase acostumados com decisões de nossos líderes em causa própria. O sistema é corporativista, os políticos eleitos não prestam contas de suas decisões, exceto de quatro em quatro anos e ainda assim contando com nossa quase ausência de memória política…

Tendo atuado em vários cargos de liderança, reconheço que tais desvios são compreensíveis, muito embora deploráveis. Compreensíveis a partir do fato de que o ser humano é essencialmente corrupto. Isso não significa que seja incapaz de atos de justiça ou bondade, mas que tudo o que faz está intrinsecamente manchado pelo pecado. O apóstolo Paulo destaca essa realidade nos primeiros capítulos de Romanos. Na famosa passagem de Romanos 3.10-18, citando o Antigo Testamento, ele escreve:

10Não há nenhum justo, nem um sequer; 11não há ninguém que entenda, ninguém que busque a Deus. 12Todos se desviaram, tornaram-se juntamente inúteis; não há ninguém que faça o bem, não há nem um sequer.

Algumas observações são importantes aqui. Primeiramente, como citado acima, isso não significa que o homem não possa fazer algo de justo e bom. Todo ser humano traz em si a imagem de Deus distorcida e corrompida, mas ainda presente. Quando um ser humano faz um ato de justiça, ele ou ela refletem a imagem de Deus contida em si. O ponto principal dessa passagem é que nenhum ser humano tem, por meio de seus eventuais atos de justiça, mérito diante de Deus. Mesmo se pudéssemos imaginar um ser humano que cometeu apenas um pecado, este já estaria completamente condenado, pois deixou o estado de perfeição. O pecado em si é a condição de rebeldia contra Deus, e atos de pecado são decorrentes. Essa convicção é fundamental porque descreve a cada um de nós, mesmo aqueles que, tendo reconhecido sua situação, aceitaram o dom gratuito da justificação em Cristo. Uma vez reconhecendo nossa pecaminosidade, precisamos estabelecer maneiras de checarmos a nós mesmos; caso contrário, vamos nos desviar e praticar continuamente atos de injustiça e corrupção.

Não basta dar a indivíduos condições dignas (vide nossos políticos em geral), eles não se tornam justos e bons em decorrência das condições.
Esse é talvez o maior equívoco do humanismo e da ideologia chamada de esquerda. Esta pressupõe que o ser humano ou é bom ou é neutro. Uma referência nesta linha de pensamento é Jean-Jacques Rousseau, o qual concluiu que os problemas e vícios de uma sociedade não são decorrentes do caráter das pessoas, mas da corrupção das instituições. Com isso surgiu a máxima: “O homem é bom, quem o corrompe é a sociedade”. No entanto, como fica evidente tantas vezes, não basta dar a indivíduos condições dignas (vide nossos políticos em geral), eles não se tornam justos e bons em decorrência das condições. Por isso são necessários sistemas de prestação de contas, checagens ao longo do caminho, verificações de que decisões e atos do governo não estejam acima de qualquer questionamento.

Esse é um alerta fundamental a todo cristão, especialmente àqueles que exercem alguma forma de liderança. Não é raro ouvirmos líderes cristãos reivindicando uma autoridade quase absoluta devido à sua comunhão ímpar com Deus, e até mesmo convocando seus liderados a “confiar neles” sem dar justificativas de suas decisões. Em alguns casos, espero extremados, líderes buscam argumentos no Antigo Testamento para uma autoridade quase monárquica. A estes cabe lembrar que Moisés não entrou na Terra Prometida devido ao seu pecado. Davi foi repreendido e confrontado pelo profeta Natã. Na história da cristandade, alguns dos maiores delitos foram praticados por aqueles que alegavam o direito divino de liderar e, por conseguinte, de estarem acima de questionamentos.

É inegável que Deus chama alguns à liderança. Esse chamado está baseado em sua vontade e não na capacidade intrínseca do indivíduo, de forma que, assim como Deus escolhe as coisas loucas para envergonhar as sábias (1Coríntios 1.27), ele escolhe pessoas para liderar que talvez, em nossa perspectiva, não sejam as mais capazes. Isso deveria levar todo líder cristão a uma profunda e radical humildade, que não pode ser confundida com omissão, complacência ou falta de ousadia, mas a humildade de saber que sua autoridade é delegada, não uma parte intrínseca de sua pessoa. Esse princípio pode ser visto mesmo no Antigo Testamento. Quando o povo de Israel pediu a Samuel (1Samuel 8.7) que ungisse um rei, este se sentiu rejeitado. No entanto, Deus deixa claro que a rejeição não foi a Samuel, mas ao próprio Deus. Ou seja, ao resistir a um líder indicado por Deus, não é o líder que está sendo rejeitado, muito embora possa ser o mais atingido.

Na verdade, na medida que esse conceito for aplicado, fica evidente que a autoridade de um líder cristão se baseia em sua caminhada e intimidade com Deus, e não em sua competência. Talvez o texto que mais nos ajude a entender esta autoridade por exemplo de vida é 1Pedro 5.1-5:

1Portanto, apelo para os presbíteros que há entre vocês e o faço na qualidade de presbítero como eles e testemunha dos sofrimentos de Cristo, como alguém que participará da glória a ser revelada: 2pastoreiem o rebanho de Deus que está aos seus cuidados. Olhem por ele, não por obrigação, mas de livre vontade, como Deus quer. Não façam isso por ganância, mas com o desejo de servir. 3Não ajam como dominadores dos que foram confiados a vocês, mas como exemplos para o rebanho. 4Quando se manifestar o Supremo Pastor, vocês receberão a imperecível coroa da glória. 5Da mesma forma, jovens, sujeitem-se aos mais velhos. Sejam todos humildes uns para com os outros, porque “Deus se opõe aos orgulhosos, mas concede graça aos humildes”.

Muito já foi escrito sobre essa passagem. No entanto, diante de mais uma ação de nossos líderes políticos que contrariam diretamente essas instruções, parece-me oportuno rever o que a passagem ensina aos líderes que se dizem agir em nome de Jesus. Em primeiro lugar, se observa que Pedro não se intitula apóstolo, o que é curioso, pois, em um mundo evangélico com tantos “apóstolos”, aquele que com certeza podia fazê-lo não julgou ser importante relembrar ninguém de sua função. Em total sintonia com o que estava para escrever, ele prefere ser reconhecido como um presbítero igual aos demais, muito embora os lembre de que ele foi testemunha pessoal dos sofrimentos de Cristo, critério fundamental do apóstolo.

Em segundo lugar, Pedro destaca o aspecto voluntário da liderança. Ou seja, quem lidera o faz em livre resposta ao chamado de Deus. Nesse aspecto ele ecoa o apóstolo Paulo, que afirma que em primeiro lugar um candidato ao presbitério deve aspirar ser um presbítero. Ainda nesta perspectiva, liderar tem de ser algo espontâneo, algo que é assumido livremente. Ninguém pode ou deve ser forçado a assumir uma posição de liderança. Os casos em que vi isso acontecer sempre terminaram em lideranças disfuncionais e medíocres.

A não ser que sua motivação seja servir ao Rei e à sua obra, não aceite uma posição de liderança.
Terceiro, a motivação legítima é o serviço e não a ganância. Há muitos casos em que lideranças evangélicas assumem posições por mera e básica ganância financeira. Esses casos são evidentes e logo identificados. Mas há também casos que a ganância não é financeira. Embora não possa tecnicamente ser chamada de ganância, um dos maiores motivadores para jovens líderes é a popularidade e o poder… Para estes eu gostaria de dizer que, ainda que alguns possam atingir seu objetivo, o preço é alto demais. É alto demais para os líderes e alto demais para a igreja. Em resumo, a não ser que sua motivação seja servir ao Rei e à sua obra, não aceite uma posição de liderança. As demandas e conflitos inerentes à função vão consumir sua alma.

Em quarto lugar, parece haver dois lados da autoridade. Um é o lado de Deus, ou seja, ele escolhe e dá autoridade àqueles que deseja. Pessoas que são usadas por Deus como líderes espirituais não precisam nem tentam dominar. Na verdade, exercem sua autoridade com relutância, não devido à fraqueza ou temor de homens, mas devido ao fato de reconhecerem que sua autoridade não reside em si, mas que toda autoridade verdadeira se origina em Deus. Pedro destaca que nossa base da autoridade não é o poder que exercemos, mas o exemplo de caminhada com o Senhor que demonstramos. Um exemplo bíblico que apresenta isso é a relação de Davi – tanto com o rei Saul quanto na sua reação quando Absalão, seu filho, tentou lhe tomar o trono.

Por fim, Pedro relembra a todos os líderes que somos sub pastores debaixo do Supremo Pastor que um dia há de se manifestar. O rebanho não nos pertence; muito embora, com frequência, líderes se identifiquem de tal forma com seu ministério que este se torna uma extensão de sua própria vida. Existe um pastor supremo e qualquer autoridade que exerçamos é somente por delegação. Ai daquele mordomo que não lida com os tesouros do seu senhor de acordo com sua vontade!

A passagem termina com uma exortação à humildade. Nada poderia ser mais adequado. O grande vilão do coração de qualquer líder é a arrogância. Tanto pode ser aquela arrogância mais facilmente identificável – em que o líder realmente crê que tem o poder e portanto age de todas as formas para preservá-lo – como pode ser uma arrogância mais sutil – em que ele ou ela crê que seu bem-estar ou a preservação de relações cordiais é mais importante do que posicionar-se de acordo com a vontade de Deus. No segundo caso, já vi líderes serem coniventes com situações evidentes de pecado, condescendentes com indivíduos influentes, mas imaturos ou omissos com aspectos de ensino que confrontariam aqueles que este líder quer agradar…

Liderança é um tema amplo e muito complexo. Minha sincera oração é que todos nós que exercemos qualquer função de liderança possamos fazê-lo debaixo da graça e direção de Deus. E que o resultado final de nosso ministério sejam pessoas mais apaixonadas, mais rendidas, mais comprometidas com Jesus, para a glória de Deus Pai.

Daniel Lima foi pastor de igreja local por mais de 25 anos. Formado em psicologia, mestre em educação cristã e doutorando em formação de líderes no Fuller Theological Seminary, EUA. Daniel foi diretor acadêmico do Seminário Bíblico Palavra da Vida por 5 anos, é autor, preletor e tem exercido um ministério na formação e mentoreamento de pastores. Casado com Ana Paula há mais de 30 anos, tem 4 filhos e vive no Rio Grande do Sul desde 1995.

Em quem ou no que acreditar?

Em quem ou no que acreditar?
Daniel Lima

O primeiro turno das eleições passou. Agora começam os primeiros movimentos políticos visando o segundo turno. Um dos elementos mais surpreendentes nestas situações é como lidamos com a mídia social. Devo confessar que sou um forasteiro no mundo digital, talvez por isso admito também um profundo senso de impotência. Notícias se acumulam com uma velocidade alucinante. Acusações e contra-acusações. Posts obviamente mentirosos, de ambos os lados, colocados ali por pessoas que conheço e que, em circunstâncias normais, são pessoas razoáveis, sensatas e equilibradas. Fica muito difícil de saber em que acreditar e, consequentemente, em quem acreditar.

Neste quadro há um outro aspecto tanto ou mais surpreendente. Por força da lei, todo candidato deve apresentar um plano de governo. São documentos genéricos, mas que devem apresentar linhas gerais daquilo que os candidatos pretendem fazer. Tomei o tempo de ler vários deles. Devo dizer que foi trabalho árduo, foram muitas páginas com várias afirmações ousadas e soluções, a meu ver, fantasiosas. Sendo peças de campanha política, é óbvio que devem ser lidas com o devido cuidado e uma boa dose de desconfiança. Ainda assim, são declarações daquilo que os candidatos afirmam que pretendem fazer. São como cartas de intenções. O que tem me chocado é que muitos apoiadores, inclusive os mais ardorosos, de ambos os lados não leram estas propostas. Conversei um tempo atrás com um jovem inteligente, articulado e especialmente passional. Na época eu lhe perguntei se ele havia lido um destes documentos do seu partido com mais de 300 páginas. Ele, com extremo descaso, afirmou que não e que nem precisava ler… pois acreditava em seu candidato.

É possível acreditar tanto em uma pessoa, que, não importa o que ela diga, eu ainda lhe consagro minha lealdade? Por outro lado, é possível acreditar tanto naquilo que uma pessoa diz, que, não importa sua história, o que ela tem feito, eu ainda assim continuo a seguir seu discurso? Há, no campo da antropologia, um livro clássico escrito por Eric Hoffer (1898-1983) em que ele descreve movimentos de massa e o que ele chama de “true believer”. Estas são pessoas que, uma vez escolhido o foco de sua confiança, ou de seu ódio, desligam a mente e se recusam a ler, ouvir, analisar e ponderar. Na verdade, seu significado está em participar passionalmente de uma causa. Elas rejeitam com ardor a imparcialidade, pois é justamente no alinhamento radical (amando seu candidato ou partido e odiando o inimigo) que elas encontram sentido de vida. Mais do que as possíveis consequências desastrosas de suas escolhas, “true believers” temem estar errados.

Antes de lançarmos olhares de desprezo aos “true believers”, é preciso lembrar em primeiro lugar que um indivíduo nesta condição nunca se reconhece como tal. Em segundo lugar, basta lembrar da Alemanha na década de 1930 ou dos Estados Unidos na década de 1960 para entender que pessoas cultas e, em condições normais, bastante razoáveis podem, sim, se tornar massa de manobra. Cabe a nós mais uma autocrítica e autoanálise criteriosa do que nos apegarmos à soberba da certeza absoluta nestes pantanosos campos da política.

Como podemos, enquanto seguidores de Jesus, lidar com estes tempos tempestuosos? Como podemos discernir, em meio a tanta propaganda e tanta paixão mal informada, em que acreditar; ou melhor, em quem acreditar? Recentemente eu me deparei com uma passagem que me levou a refletir sobre este tema. Trata-se do curto relato de João 4.46-53:

Mais uma vez ele visitou Caná da Galileia, onde tinha transformado água em vinho. E havia ali um oficial do rei, cujo filho estava doente em Cafarnaum. Quando ele ouviu falar que Jesus tinha chegado à Galileia, vindo da Judeia, procurou-o e suplicou-lhe que fosse curar seu filho, que estava à beira da morte. Disse-lhe Jesus: “Se vocês não virem sinais e maravilhas, nunca crerão”. O oficial do rei disse: “Senhor, vem, antes que o meu filho morra!”. Jesus respondeu: “Pode ir. O seu filho continuará vivo”. O homem confiou na palavra de Jesus e partiu. Estando ele ainda a caminho, seus servos vieram ao seu encontro com notícias de que o menino estava vivo. Quando perguntou a que horas o seu filho tinha melhorado, eles lhe disseram: “A febre o deixou ontem, à uma hora da tarde”. Então o pai constatou que aquela fora exatamente a hora em que Jesus lhe dissera: “O seu filho continuará vivo”. Assim, creram ele e todos os de sua casa.

A história é bem simples. Um homem pediu a Jesus para curar seu filho, pois estava sem esperança de salvá-lo com os métodos que havia usado. Jesus lhe diz que seu filho já foi curado, ele crê, vai para casa e percebe que seu filho foi curado exatamente na hora em que conversou com Jesus. Com esta constatação o homem e sua família passam a crer em Jesus. Apesar da simplicidade do relato, há alguns princípios interessantes de se observar. Este homem creu na palavra de Jesus e, uma vez tendo verificado sua eficácia, creu em Jesus. Este processo parece simplista, mas talvez nos dê uma dica de um método para decidir no que e em quem acreditar.

Certamente já abundavam rumores (fake news) sobre Jesus. Os fariseus o acusavam de herege e blasfemo, os saduceus de agitador e revolucionário, os habitantes de Judá suspeitavam dele por ser nazareno e os galileus duvidavam dele por ser da região. Ele curava no sábado e se misturava com pessoas de má fama. Era um mestre, mas fazia coisas inesperadas e inconvenientes. Suas histórias eram cativantes, mas quase sempre surpreendiam os ouvintes. No entanto, em seu desespero este homem vai a Jesus e lhe apresenta sua necessidade, sua queixa, seu pedido. Jesus confronta a incredulidade dele e do povo, mas ele, usando da prerrogativa dos desesperados, continua insistindo para que Jesus venha com ele. Diante de uma fé tão sincera, tão sem opções, ele afirma que o filho estava curado. E então, e não perca este ponto, este homem simplesmente creu na palavra de Jesus. É bem provável que ele ainda não cria que Jesus era o Messias. Não acreditava que Jesus era o Filho de Deus. Talvez tivesse aquela vaga esperança, aquele sonho que empurramos para o lado pois parece ser bom demais para ser verdade. Como todo pai diante da impotência de cuidar de um filho, contra toda esperança, ele apenas se agarrou à palavra de Jesus. Em meio aos rumores contrários ele foi verificar se realmente a palavra dele havia se cumprido. Ao receber a notícia, talvez precisando de mais provas, ele ainda investiga a hora em que o filho havia melhorado. Confirmando o inegável fato de que foi no exato momento que recebera a palavra, ele e toda sua casa passaram a crer em Jesus.

Calendários 2019
Há um outro exemplo marcante de crer antes de ver. Raabe era uma prostituta em Jericó. Ela não tinha muitas informações, apenas rumores do que os inimigos de Israel diziam. Ela nunca havia visto um judeu, nunca tinha lido as Escrituras, não possuía muitas informações sobre o Deus de Israel. No entanto, ela afirma:

Sei que o Senhor deu a vocês esta terra… temos ouvido como o Senhor secou as águas do mar Vermelho perante vocês quando saíram do Egito, e o que vocês fizeram a leste do Jordão com Seom e Ogue, os dois reis amorreus que aniquilaram… pois o Senhor, o seu Deus, é Deus em cima nos céus e embaixo na terra (Josué 2.9-11).

Ela só tinha ouvido rumores, mas percebia seu povo assustado e chegou rapidamente a uma conclusão: é melhor me arriscar com este Deus, mesmo sem conhecê-lo, do que continuar confiando em meu povo. Com certeza não faltavam rumores deste Deus temível que havia destruído outros povos. No entanto, ela acreditou no que ouviu e concluiu: “Jurem-me pelo Senhor que, assim como eu fui bondosa com vocês, vocês também serão bondosos com a minha família” (Josué 2.12). Ela pede então um sinal seguro, mostrando que sua fé ainda é experimental – ela ainda precisa de garantias. Com certeza, após ser salva juntamente com sua família da destruição da cidade, ela passa a crer no Deus de Israel.

Crer em palavras de homens é perigoso. Não importa o quanto queiramos que algo seja verdade, a realidade tem esta teimosa maneira de nos chocar, despedaçando nossos sonhos e fantasias. No entanto, na escolha de um político precisamos deixar de lado a paixão, as conclusões absolutas, as certezas baseadas em rumores. Precisamos ouvir as palavras que cada candidato está falando e comparar com a realidade. Promessas são fáceis, especialmente em tempos de campanha. Cuidado com paixões e com as manipulações às quais estamos sempre sujeitos. De um modo mais profundo, minha oração é que as palavras de Deus ganhem mais espaço em nossos corações do que as promessas de qualquer político. Ele tem se mostrado fiel, já os políticos…

Sobre Tolerância e Verdade

Sobre Tolerância e Verdade
Daniel Lima

O que esperar de uma mídia comprometida mais com versões do que com fatos? Mais com popularidade do que com a verdade? Seja em entrevistas que assumem ares persecutórios (tanto para candidatos de esquerda, como de direita), seja na escolha de quais fatos destacar e quais ignorar, a mídia serve de agente de suas ideologias, de seus patrocinadores. É inegável que isso é natural, o que destaca mais uma vez nossa necessidade de discernimento, de avaliar posições e pronunciamentos a partir de critérios sólidos.

Na semana passada, nas páginas amarelas da revista VEJA, foi publicada uma entrevista com o pastor Kleber Lucas. Ele é um cantor, pastor e líder evangélico da Igreja Batista Soul, na Barra da Tijuca, Rio de Janeiro. É compreensivo que esta seção da revista procure entrevistar personagens polêmicos, que tragam algo de diferente para contribuir. No entanto, percebe-se uma contínua escolha de personalidades que promovem a perspectiva editorial da revista. É importante analisar quais os pontos principais levantados na entrevista, qual direção esta reportagem indica e, ainda mais, como entender as declarações deste líder evangélico.

Especialmente nas gerações nascidas pós-1964, o tema de tolerância é como um “santo graal”, o elemento sagrado indiscutível.
A entrevista faz menção de acusações de que a igreja evangélica é racista e de que há um discurso de ódio. Estas acusações são tristemente verdadeiras. Somos humanos e trazemos conosco ainda os efeitos do pecado e de preconceitos herdados da cultura em que crescemos. Muito embora as duas posições sejam promovidas apenas por uma minoria, e a própria mídia secular procure sempre colocar uma lente de aumento sobre estas posições mais radicais; o fato é que esta é uma crítica verdadeira, à qual temos de acatar e buscar tratar.

O tema central apresentado na reportagem é o da tolerância. Este me parece o elemento que tem unido o discurso do mundo secular em nossos dias. Especialmente nas gerações nascidas pós-1964, o tema de tolerância é como um “santo graal”, o elemento sagrado indiscutível. Na verdade, se alguém apresenta uma posição que se choca ou contradiz posições que estão sendo promovidas, com frequência esta pessoa é imediatamente tida como intolerante e equiparada aos piores momentos da Inquisição. É curioso que uma postura hostil ao cristianismo não seja jamais interpretada como intolerante. É igualmente curioso observar grupos que, quando são minoria, pedem tolerância, mas assim que assumem o controle se revelam exatamente o contrário. No entanto, o que também é inegável é que tolerância é um princípio cristão. Jesus mesmo tratava pessoas com as mais diferentes opiniões com respeito e amor. Aqueles que mais o confrontaram foram justamente os mais intolerantes. No caso, tanto os fariseus, que eram intolerantes religiosos, quanto os saduceus, que eram intolerantes políticos, como os herodianos, que eram intolerantes com quem ameaçasse seu bem implantado sistema de corrupção.

A carta de Tiago também se posiciona claramente contra a acepção de pessoas: “Se vocês de fato obedecerem à lei do Reino encontrada na Escritura que diz: ‘Ame o seu próximo como a si mesmo’, estarão agindo corretamente. Mas, se tratarem os outros com parcialidade, estarão cometendo pecado e serão condenados pela Lei como transgressores” (Tiago 2.8-9). O próprio apóstolo Paulo afirma em Colossenses 3.11: “Nessa nova vida já não há diferença entre grego e judeu, circunciso e incircunciso, bárbaro e cita, escravo e livre, mas Cristo é tudo e está em todos”. Somos chamados a amar indistintamente, pois se o próprio Cristo morreu por nós quando ainda éramos seus inimigos, como podemos agir diferente?

Tendo dito isso, não apenas como contraponto, mas como princípio, precisamos explorar um outro aspecto para que possamos dar a devida profundidade a este difícil assunto de tolerância. Tolerância não significa abandonar nosso compromisso com a verdade. Significa reconhecer que o outro tem o direito de decidir o rumo de sua vida, mesmo que seja, após alertado, seguir em uma direção que não corresponda à verdade. No entanto, é importante lembrar que Jesus deixa claro que somos libertos pela verdade e não pela tolerância (João 8.32). Ele afirma ainda com clareza que toda mentira vem do Diabo (João 8.44), inclusive se, ao sermos tolerantes, omitirmos a verdade. Nosso Deus age assim: tolerando nossas opções mas permitindo que soframos as consequências de nossas escolhas. Paulo afirma em sua carta aos gálatas: “Não se deixem enganar: de Deus não se zomba. Pois o que o homem semear isso também colherá. Quem semeia para a sua carne da carne colherá destruição; mas quem semeia para o Espírito do Espírito colherá a vida eterna” (Gálatas 6.7-8).

Tolerância não significa abandonar nosso compromisso com a verdade. Significa reconhecer que o outro tem o direito de decidir o rumo de sua vida.
Neste sentido, a entrevista do pastor Kleber Lucas preferiu promover apenas o lado aceitação da tolerância e não o lado consequências. E, como toda meia verdade infelizmente é uma mentira completa, tornou-se mais uma distorção do que uma contribuição ao evangelho. O pastor Kleber diz que aprendeu tolerância na favela. Caso ele tivesse passado esta experiência pelo crivo da Palavra, ele poderia ter se tornado um exemplo para tantos de nós que, por várias razões, lutamos com a intolerância. No entanto, ao apoiar e promover expressões religiosas e de fé que confrontam diretamente o evangelho de Cristo, ele deixa o espaço da tolerância e adentra o campo do relativismo teológico. Religiões de matriz africana declaradamente promovem a adoração de entidades espirituais, o que a Bíblia chama de demônios. Paulo nos alerta: “O Espírito diz claramente que nos últimos tempos alguns abandonarão a fé e seguirão espíritos enganadores e doutrinas de demônios” (1Timóteo 4.1). Isso não nos dá liberdade de odiar aqueles que seguem estas religiões, nem de ofendê-los ou muito menos depredar seus lugares de culto, mas tampouco nos autoriza a participarmos de cultos de adoração com eles.

Na passagem muito conhecida da segunda carta de Paulo aos coríntios lemos: “Não se ponham em jugo desigual com descrentes. Pois o que têm em comum a justiça e a maldade? Ou que comunhão pode ter a luz com as trevas? Que harmonia entre Cristo e Belial? Que há de comum entre o crente e o descrente?” (2Coríntios 6.14-15). Tolerância deve nos levar a ter comunhão com irmãos em Cristo que têm diferenças de opinião em aspectos não essenciais da fé (Romanos 14). Tolerância nos leva mesmo a tratar com respeito e amor aqueles que não são irmãos em Cristo por não aceitarem a verdade central do evangelho, mas com estes não temos comunhão espiritual e nem nos é permitido afirmar, como relatado na entrevista, que “Todos os seres humanos são [filhos de Deus]”. Qual estudioso sério da Palavra conceberia como coerente, por exemplo, uma narrativa de Jesus cultuando no templo de Diana em Éfeso? Ou contribuindo para a reconstrução do templo de Baal? Tolerância não pode nos afastar da verdade ou nos deixar reféns de posições anticristãs, ignorando aquilo a que fomos chamados: “… anunciar as grandezas daquele que os chamou das trevas para a sua maravilhosa luz” (1Pedro 2.9).

Qual estudioso sério da Palavra conceberia como coerente, por exemplo, uma narrativa de Jesus cultuando no templo de Diana em Éfeso?
Há outro exemplo na entrevista que mostra o quanto a tolerância sem o devido respeito pela verdade pode nos levar a aceitar um desvio. Em certo momento, o pastor Kleber Lucas relata que está em seu terceiro casamento. Ele afirma “Esse é o meu pecado, talvez. Mas é a minha história, e não posso ser visto como um pária por isso”. Em um primeiro momento ele parece afirmar que um terceiro casamento é um sinal de que houve algo errado, mas rapidamente ele inclui um “talvez” para, logo a seguir, assumir como sua história e se defender de qualquer tratamento diferente devido a ela. Como vimos acima, não temos o direito de tratar alguém como pária por este ou qualquer outro motivo, ao mesmo tempo, porém, não podemos ignorar que há ações e consequências. A misericórdia de Deus reconhecidamente nos livra de muitas consequências que mereceríamos, especialmente a condenação eterna, mas certamente não nos livra de todas; pelo contrário, nosso Deus disciplina a quem ama (Hebreus 12.5-11).

Apocalipse
A mídia mais uma vez faz seu papel de tentar relativizar a verdade e promover pastores e líderes que rompem com a ortodoxia cristã e tornam o evangelho inclusivo, descartando a necessidade da fé (vide entrevista com Rob Bell, “Quem falou em céu e inferno?”, nas páginas amarelas da VEJA, em 28/11/2012). Infelizmente, mais uma vez um líder religioso tido como evangélico foi usado para aumentar a confusão com respeito ao evangelho. Mais uma vez as palavras de Paulo se mostram necessárias hoje em dia: “Eu mesmo, irmãos, quando estive entre vocês, não fui com discurso eloquente nem com muita sabedoria para lhes proclamar o mistério de Deus. Pois decidi nada saber entre vocês, a não ser Jesus Cristo, e este crucificado” (1Coríntios 2.1-2).

Minha oração é que o pastor Kleber Lucas perceba seu engano e volte atrás em suas posições, pelo menos conforme apresentadas na entrevista da VEJA. Mesmo que isso lhe custe popularidade diante do mundo. Minha oração é que eu, você e tantos outros leitores usemos critérios bíblicos para dar fundamento à nossa tolerância, para que esta seja expressão de um amor comprometido com a verdade. Pois, se como sal perdermos nossa capacidade de “salgar”, nos tornaremos irrelevantes!

O Temor a Deus Como Fonte de Vida

O Temor a Deus Como Fonte de Vida
Rolf Höneisen

Na sociedade ocidental o temor a Deus está desaparecendo rapidamente. Isso traz consequências: sem temor a Deus falta a condição decisiva para o êxito da comunidade.

“O temor do Senhor é fonte de vida, e afasta das armadilhas da morte.” — Provérbios 14.27

Deus é o princípio e o fim! Tudo inicia com Deus e tudo termina com Deus. Ele chamou o Universo e nossa Terra à existência. Através do estudo da Criação, o homem adquire a noção que há um Criador com infinita grandeza e poder por trás de tudo. “Pois desde a criação do mundo os atributos invisíveis de Deus, seu eterno poder e sua natureza divina, têm sido vistos claramente, sendo compreendidos por meio das coisas criadas, de forma que tais homens são indesculpáveis” (Rm 1.20). Por ter sido criado por Deus, o homem é responsável. Tudo o que o homem pode reconhecer de Deus é encontrado na Criação e através da sua consciência (ver Jo 1.9).

Pisar em um ouriço-do-mar causa uma dor imensa. No entanto, quem de outro modo daria atenção para um ouriço-do-mar? Os cortes transversais em seus espinhos mostram o seu conteúdo. Sob o microscópio ele se revela como se fossem estrelas reluzentes. Os espinhos são complexamente elaborados. Sua formação varia com a espécie. Eles são complexos, belos, úteis e com design perfeito.

Eu mostrei fotos dos espinhos de ouriços-do-mar para pacientes de uma clínica para tratamento de deficientes mentais. Após a apresentação, um homem cadeirante permaneceu no local. Percebi em seu olhar que ele ficou impressionado em sua consciência com a imagem de um milagre da Criação. A noção a respeito do Deus invisível havia sido despertada nele. Esse homem, que vivia há muitos anos nesse lar e que, sob a ótica humana, não tinha perspectiva alguma de mudança, viu uma nova luz no horizonte. Assim, conversei com ele sobre início e fim, sobre Céu e inferno e sobre o caminho que conduz a Deus – Jesus Cristo.

Pessoas tementes a Deus vivem sob princípios de Deus em muitas áreas, mesmo sem conhecê-los adequadamente. Elas são abençoadas mesmo não estando em um relacionamento pessoal de fé com Deus. As regras de Deus para a vida têm efeito preservador. Acima de tudo, na área da proteção à vida, nas questões desde o aborto até à eutanásia, pessoas tementes a Deus têm uma posição firme e clara. Elas agem de acordo com sua consciência e dizem: “Assim não dá!”

O temor a Deus no sentido correto conduz ao respeito das ordens dadas por Deus, até nos mínimos detalhes. Deus trata Suas ordens com a mesma seriedade como trata as Suas promessas. Eu não administro meus relacionamentos e propriedades a bel prazer, mas no “temor do Senhor”. Qual é o efeito do temor ao Senhor, como ele se torna visível? “Quem tem os meus mandamentos e lhes obedece, esse é o que me ama” (Jo 14.21a).

Não é o autoconhecimento, mas o temor a Deus que conduz à vida. Um olhar sobre a sociedade ocidental, porém, mostra que o temor do Senhor está desaparecendo e que, ali onde ele ainda existe, é combatido ativamente. Na Alemanha, no estado de Nordrhein-Westfalen, o partido Die Linke (A Esquerda) quer retirar da Constituição a frase: “Temor a Deus como alvo da educação”. Os livres-pensadores e ateus colocam de lado o resto do temor a Deus e proclamam: provavelmente não existe nenhum Deus. Essa rejeição aberta está abrindo um caminho com diversas consequências para a sociedade. Sem temor a Deus falta a condição para afastar “as armadilhas da morte”. Numa sociedade sem temor a Deus cresce justamente o contrário de paz e respeito. O que aumenta é o cinismo, o egoísmo e a violência.

A expressão “temor do Senhor” aparece muitas vezes na Bíblia. No Antigo Testamento consta a palavra yi’rah, no Novo Testamento aparece phobos e significa medo e temor. Pode ter tanto o sentido positivo como negativo. Negativo aonde o medo diante do pecado e perdição não encontra saída e a figura divina se restringe à ira de Deus, que condena e executa.

O temor a Deus se torna positivo quando revela pecado e perdição e, ao mesmo tempo, leva para a saída, para a solução, leva ao Salvador e à fé. O temor a Deus então se transforma na fonte de vida quando inclui o amor de Deus. O abrangente amor de Deus não nos mantém aprisionados ao medo. O apóstolo João escreveu: “Dessa forma o amor está aperfeiçoado entre nós, para que no dia do juízo tenhamos confiança, porque neste mundo somos como ele. No amor não há medo; ao contrário o perfeito amor expulsa o medo, porque o medo supõe castigo. Aquele que tem medo não está aperfeiçoado no amor. Nós amamos porque ele nos amou primeiro” (1Jo 4.17-19).

A graça e o amor de Deus transformam o medo diante do onipotente em veneração e sinceridade. Por isso o temor a Deus é uma fonte de vida central numa sociedade e também numa igreja cristã. Quanto ao assunto de relacionamento mútuo na igreja, Paulo nos ensina: “Sujeitem-se uns aos outros, por temor a Cristo” (Ef 5.21).

Na literatura da sabedoria bíblica, no livro de Provérbios, lemos: “O temor do Senhor é fonte de vida, e afasta das armadilhas da morte” (14.27). “Afastar” tem o significado de “eu me desvio de um caminho no qual estou andando”. Nessa passagem, sem dúvida, está em jogo a questão da morte eterna e da vida eterna. Isso, todavia, inclui também as “pequenas mortes” dos nossos relacionamentos cotidianos.

Tudo inicia com Deus e tudo termina com Deus. Quando falamos em Deus, o Pai, estamos falando do onipotente, onisciente e maravilhoso Criador dos Céus e da Terra. Quando falamos em Jesus – idem! Deus não apenas sabe de cada fio de cabelo em minha cabeça, mas também de cada passo que eu dou. Ele sabe como e por que permite algo e quanto tempo permanece determinada situação. Será que eu tenho tanto temor a Deus, tanta veneração a Deus e tanta confiança que eu sou capaz de acreditar nisto?

Era a época antes do Natal de 1945, em algum lugar na Alemanha. Enquanto os filhos esperavam alegres pela comemoração do Natal, a mãe deles vivia numa sequência de altos e baixos, entre esperança e medo. Ela ainda não havia recebido notícias do seu marido. Ele havia sido aprisionado na Rússia. Ainda estaria vivo? Ele voltará para casa? Na véspera de Natal ouviu-se a campainha da porta. O carteiro veio entregar a correspondência. A mãe lia a carta enquanto as crianças brincavam eufóricas – de repente, porém, elas silenciaram. A mãe estava sentada à mesa, estremecendo. As suas lágrimas caíam sobre a carta aberta sobre a mesa. Seu marido havia morrido na prisão, no dia 15 de outubro. As crianças se agarraram à mãe. Houve um silêncio mortal. Finalmente, um dos filhos perguntou: “Mamãe, agora o Natal será cancelado?” A mãe fica perplexa, mas então, com um sobressalto, diz: “Não, agora comemoraremos mais do que nunca!” A mãe organizou as comemorações de Natal para os filhos porque o Salvador veio ao mundo. O temor a Deus se transforma em fonte de vida. Ele faz reconhecer que Deus não perdeu o controle. O Filho de Deus nasceu em meio à perdição da nossa era, para nos libertar das amarras mortais. Ele fez por nós o que éramos incapazes de conseguir: o Filho de Deus, com o Seu sangue, pagou nossa culpa perante Deus. Através da fé recebemos a graça. Podemos amarrar nossa vida a Jesus e ter uma nova vida através do Seu poder, e isso diariamente. Não sou mais eu quem vive, mas Cristo vive em mim! – “Pois somos santuário do Deus vivo. Como disse Deus: ‘Habitarei com eles e entre eles andarei; serei o seu Deus, e eles serão o meu povo’” (2Co 6.16).

Rute
Em nossos dias observamos um ataque maciço contra as ordens de Deus sobre o casamento e sobre a paternidade e maternidade. É claramente perceptível como o Diabo anda ao redor, procurando qual o próximo casamento que ele consegue tragar, qual o próximo relacionamento que ele consegue destruir, qual o próximo coração de um homem, mulher ou criança que ele consegue ferir. Os ataques ocorrem em todas as frentes e são apoiados desde a mídia até o cinema. O ataque tem dimensões globais. Também os cristãos são arrastados para as armadilhas fatais através de suas insinuações de que romantismo, paixão e sexo com alternância de parceiros trazem satisfação de vida. No entanto, não estamos expostos vulneravelmente a esses ataques. Uma força essencial disponível é a do temor ao Senhor.

José foi vendido para o Egito e foi levado do mercado de escravos à casa de Potifar, um dos mais importantes funcionários do Faraó. José vivia em veneração diante de Deus e Deus abençoou seu procedimento. Não devemos achar, porém, que por isso ele não tivesse as necessidades e emoções masculinas típicas. Além disso, por ser de boa aparência, a mulher de Potifar lançou o olhar sobre ele. Certo dia ela o convidou explicitamente para que ele dormisse com ela. A tentação não estava na “telinha”, mas estava palpável diante dele. Com que justificativa José rejeitou a mulher de Potifar, que não o convidou apenas uma vez, mas diariamente? Ele a rejeitou com as palavras: “Como poderia eu, então, cometer algo tão perverso e pecar contra Deus?” (Gn 39.9c).

José tratou a situação a partir da sua posição de relacionamento com Deus. Ele considerou que sair da linha seria primeiramente um murro no rosto de Deus! O seu temor a Deus o ajudou a vencer. Dessa maneira, José honrou a Deus e foi honrado por Deus, e salvou o seu povo na crise de fome. A Bíblia ensina: “Aquele que teme o Senhor possui uma fortaleza segura, refúgio para os seus filhos” (Pv 14.26).

De onde Noé conseguiu reunir forças para construir um gigantesco cargueiro numa região seca e em meio à zombaria do mundo? Encontramos a explicação no Novo Testamento, em Hebreus 11.7. Ele construiu sua arca “pela fé” e “movido por santo temor”. Desse modo ele salvou a sua família e, ao mesmo tempo, a humanidade. A abençoada consequência para Noé foi que ele recebeu graça, e o melhor: Deus firmou uma aliança com ele, Deus o transformou em parceiro na aliança!

O que proporciona a força de viver para uma pessoa? Uma aliança com Deus, um firme relacionamento com Jesus Cristo. Ele nos concede a força para termos autoridade sobre as situações em nossa vida. “Não inveje os pecadores em seu coração; melhor será que tema sempre o Senhor. Se agir assim, certamente haverá bom futuro para você, e a sua esperança não falhará” (Pv 23.17-18).

A atmosfera das primeiras igrejas cristãs estava impregnada pela vida no temor ao Senhor. A bênção resultante foi paz, força e crescimento. “A igreja passava por um período de paz em toda a Judeia, Galileia e Samaria. Ela se edificava e, encorajada pelo Espírito Santo, crescia em número, vivendo no temor do Senhor” (At 9.31). Acrescento mais uma passagem de Provérbios: “A recompensa da humildade e do temor do Senhor são a riqueza, a honra e a vida” (22.4). O temor a Deus está diretamente ligado à bênção.

A vida espiritual sem temor a Deus leva à indiferença. Crescimento, fé e santificação somente prosperam em uma atmosfera de temor de Deus. O apóstolo Paulo escreveu: “Amados, visto que temos essas promessas, purifiquemo-nos… aperfeiçoando a santidade no temor de Deus” (2Co 7.1). Para viver em humildade, com temor a Deus, é necessário ter disposição. Somente deste modo é possível permanecermos no processo de transformação. Assim conseguimos ingressar na riqueza de Deus.

A vida de um cristão não se resume apenas a sorrisos piedosos e atitudes adequadas. Trata-se de honrar a Deus! Para tanto, é necessário ter uma vida no temor ao Senhor e desviar-se do mal. Desta maneira permanecemos no caminho com Deus. Não para nossa salvação, porém em gratidão pela nossa salvação.

Quem não conhece o poder de Deus, por não saber o que é o verdadeiro temor a Deus, poderá ser ajudado através de uma oração sincera: “se clamar por entendimento e por discernimento gritar bem alto; se procurar a sabedoria como se procura a prata e buscá-la como quem busca um tesouro escondido, então você entenderá o que é temer o Senhor e achará o conhecimento de Deus” (Pv 2.3-5).

O Céu e a Terra se unem no coração da pessoa que teme a Deus. Deus utiliza pessoas individualmente para construir o Seu reino. Um exemplo: as parteiras Sifrá e Puá. Elas não obedeceram às ordens governamentais de matar todos os meninos recém-nascidos. De onde elas tiraram forças para abandonarem a sua costumeira segurança? Elas tinham – de acordo com Êxodo 1.17 – temor a Deus, por isso não obedeceram ao rei do Egito e deixaram os meninos com vida.

O temor a Deus é sabedoria. Sabedoria de Deus significa desviar-se do mal (ver Jó 28.28). Isto significa que é importante, também no futuro, defender alguma posição impopular e não acompanhar algumas coisas que não devem ser feitas, pois “o temor do Senhor é fonte de vida, e afasta das armadilhas da morte”.

“Sifrá” significa beleza e “Puá” significa brilho. Essas duas mulheres trouxeram luz para um mundo escurecido porque tinham temor a Deus. Os cristãos também têm essa tarefa – ser luz para o mundo e fazer resplandecer o brilho de Deus na escuridão da morte. — Rolf Höneisen