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O triste significado atual de “evangélico”

O triste significado atual de “evangélico”
“Pois chegou a hora de começar o julgamento pela casa de Deus…” (1Pedro 4.17)

“Evangélico” era a definição que identificava cristãos fiéis à Bíblia, que levavam a sério a Palavra de Deus no ensino e no viver, sem supressões ou acréscimos. Hoje, porém, o termo infelizmente se tornou inconsistente. Numa época em que seria necessária uma oposição especial ao espírito anticristão da época, muitos evangélicos estão em litígio recíproco, infiltrados, mundanizados, contemporizados, fracos na fé, desanimados e debilitados. As discussões, cisões e escândalos dos últimos tempos são provas suficientes. O único satisfeito com essa situação é o Diabo, ao qual resta “pouco tempo” (Apocalipse 12.12) e espera que o reinado do Anticristo se desenvolva possivelmente sem entraves. Aqui estão alguns exemplos dessa triste situação, que esperamos que seja revertida. Em muitos círculos e comunidades de cristãos encontramos:

a substituição de uma postura bíblica consistente por sistemas contrários à Bíblia e afirmações abertas ou adaptadas para, por exemplo, a relativização das doutrinas bíblicas da Criação, igreja e sobre o fim dos tempos;

a introdução de enganos do humanismo, feminismo, evolucionismo e outros “ismos”;

a relativização ou inobservância de padrões éticos bíblicos, referentes a, por exemplo, concubinato, divórcio com base em mera “desordem”; opiniões, moda e estilo musical mundano;

a falta de disciplina na igreja em caso de pecados crassos e falsas doutrinas que destroem a igreja;

a ascendência do “eu” (mesmo o “eu piedoso”), com seus “privilégios” em relação à majestade e santidade de Deus;

a substituição de verdadeiro discipulado bíblico de confissão de pecados, arrependimento e perdão por métodos de psicologia humanista;

a prática da “cultura do entretenimento” nas igrejas com shows, festas e jogos de diversão;

a mercantilização do evangelho por meio de eventos agressivos de divulgação de editoras, altos cachês para artistas, além de “pregações de arrecadação” desleais, manipuladas e incisivas;

a apresentação de um evangelho de “bem-estar” e de “prosperidade”;

a substituição do ensino bíblico por uma “cultura romântica” superficial;

o crescente prejuízo do teor bíblico e da profundidade doutrinária em favor de experiências e necessidades humanas em muitos novos hinos cristãos;

a crescente omissão com relação a temas bíblicos básicos como “pecado”, “arrependimento”, “cruz”, “seriedade do discipulado”, “inferno” e “perdição eterna”;

a antiga ênfase para o amor e “ternura” de Deus em relação à santidade e à seriedade de seu juízo;

a substituição do espírito bíblico de confissão e resistência por uma busca errônea de unidade e harmonia;

a total falta de ênfase da apologética bíblica (doutrina sobre identificação dos espíritos ou defesa da fé);

a crescente abertura para um ecumenismo de denominações (em parte também de religiões), existente inclusive entre alguns líderes evangélicos;

a ridicularização de irmãos que desejam se manter firmes aos claros padrões da Escritura Sagrada, rotulando-os de “limitados”, “legalistas” e “antiquados”.

Certamente isso – graças a Deus – não acontece em todas as igrejas “evangélicas”. No entanto, a pergunta deve ser feita: será que os cristãos que “valorizam” uma vida cristã tão pobre e superficial estão aptos a enfrentar o Anticristo e os seus precursores? Temo que não, e por isso mencionarei no próximo texto alguns critérios para uma vida cristã resiliente e preparada para o fim dos tempos.

Como orar pelo novo presidente?


Como orar pelo novo presidente?
Daniel Lima

O novo presidente assumiu com grande apoio e grande oposição. Não importa se você elegeu ou não este governante, somos chamados a orar por nossos governantes (1Timóteo 2.1-2). Como orar por este novo governo? E, ao mesmo tempo, como orar por nós mesmos diante deste novo ano?

Ano novo, vida nova… será? Como muitos (quase todos os) brasileiros, passei o momento da virada do ano com família e amigos. Compartilhamos sobre o conceito do “sopro de Deus” em nossa vida no ano que terminava. Não pude assistir a posse do novo governo, mas nos dias seguintes li ataques daqueles que veem evidências da perversidade do novo presidente. Sinceramente, não consigo perceber aquilo que eles veem com tanta clareza. Fiquei igualmente triste ao ler elogios de um nível quase messiânico ao novo presidente. Tampouco consigo ter o mesmo nível de certeza de que devo colocar sobre ele toda a minha esperança.

Pessoalmente, resisto a um culto da personalidade deste ou de qualquer outro governante. Este anseio por um caudilho, esta esperança lançada sobre um governante que vai, por força de seus talentos, personalidade ou mesmo “chamado divino” resolver todos os meus problemas, aponta quão equivocados, superficiais e mesmo facilmente manipuláveis nós somos. Qualquer avanço nosso como nação só vai ocorrer por meio da intervenção divina e muito esforço e sacrifício coletivos e individuais. Ao contrário de uma atitude popular que já foi chamada de sebastianismo, Dom Sebastião não voltará da Batalha de Alcácer-Quibir para nos libertar do jugo espanhol. Em última análise, como cristão que busca compreender e viver a partir da Bíblia, minha esperança tanto pessoal quanto para meu país está em um relacionamento íntimo e pessoal com o Senhor Jesus. No entanto, torço por este governo e vou orar por ele como orei pelos outros. Tenho uma pitada de esperança por ventos que parecem diferentes (ênfase no “parecem”). Embora esperançoso, lembro-me do texto do Salmo 146.3-4:

3Não confiem em príncipes, em meros mortais, incapazes de salvar. 4Quando o espírito deles se vai, eles voltam ao pó; naquele mesmo dia acabam-se os seus planos.

Dizem que muitas batalhas foram perdidas pois os generais perderam o momento oportuno. Por temor ou falta de perspicácia, por falta de informações ou arrogância, estes comandantes deixavam passar o momento em que poderiam fazer os eventos mudar de curso. Com frequência, quando se deram conta do erro, o tempo havia passado. Com certeza nosso presidente vive um momento assim. Para usar uma analogia do futebol: é a final do campeonato, o adversário vence por um gol e o relógio marca 45 minutos do segundo tempo, o goleiro está caído, o artilheiro tem a bola nos pés na entrada da área. Um gol pode levar o jogo para a prorrogação, dando ao seu time a chance da vitória; um chute para fora encerra a partida e todas as esperanças, fazendo com que a longa campanha se torne apenas mais um “poderia ter sido”.

O que separa nosso presidente de fazer diferença positivamente ou de ser apenas mais um “poderia ter sido”? Para mim é o mesmo que separa cada um de nós de realizar a obra de Deus para sua glória ou ser mais um “poderia ter sido”. O ano começa para o governo, mas também para cada um de nós. Não há nada de mágico no início de ano, mas cremos num Deus da renovação, onde cada momento pode ser um reinício. Ao mesmo tempo, cada oportunidade perdida traz consigo consequências. Este é um momento chave, o governo tem a confiança (talvez exagerada) de mais da metade da nação. O que a Bíblia tem a dizer para o presidente e para cada um de nós sobre começar bem, sobre aproveitar as oportunidades?

O ano começa para o governo, mas também para cada um de nós. Não há nada de mágico no início de ano, mas cremos num Deus da renovação, onde cada momento pode ser um reinício.
Para todo aquele que conhece a Palavra, a expressão aproveitar as oportunidades nos faz pensar em Efésios 5.15-17:

15Tenham cuidado com a maneira como vocês vivem; que não seja como insensatos, mas como sábios, 16aproveitando ao máximo cada oportunidade, porque os dias são maus. 17Portanto, não sejam insensatos, mas procurem compreender qual é a vontade do Senhor.

O tema de Paulo é como viver uma vida de acordo com a nova e radical realidade de sermos novas criaturas. O argumento para o início do governo de nosso presidente, mas também para nós, é que sejamos sábios e não tolos. O conceito é bastante comum, embora o ser sábio ainda seja mais uma arte do que uma ciência. A NVI traduz o termo chave como “a maneira como vocês vivem”. É uma excelente tradução, mas o original fala apenas de ter cuidado como “andam”. Desta forma a tradução perde um aspecto da herança judaica que Paulo destaca. A vida para os judeus era muito prática, e seguir a Deus não ficava circunscrito a discursos e teorias. Seguir a Deus tratava-se de vida prática. Por isso Paulo usa um termo tão corriqueiro. Cuidado como você anda, e não apenas cuidado com seus pensamentos ou ideias.

No caso do novo governo, importa mais o dia a dia do que os discursos, pois estes têm sido e serão dilacerados e distorcidos pelos opositores. A verdadeira prova é como será o dia a dia. Como serão tratadas as acusações de corrupção? Onde serão alocados os recursos, como será tratada a incômoda oposição, como serão tratados os sem voz… Na nossa vida, o que Paulo está tratando é do nosso dia a dia e não nossos discursos entre amigos, na igreja ou na rede social. Postar versículos e tratar mal as pessoas ao seu redor é justamente o que faz cristãos terem uma fama tão ruim.

A partir do texto entendemos que temos, sim, uma escolha: viver como sábios ou como tolos! O que significa viver como sábio? Se pudéssemos dar uns conselhos ao novo presidente, quais seriam? Há no texto pelo menos duas sugestões muito concretas e que servem tanto para nosso presidente como para cada um de nós: (1) aproveite as oportunidades e (2) procure compreender a vontade de Deus.

Aproveite as oportunidades
A campanha terminou, o cargo já lhe foi entregue. O tempo dos discursos bombásticos já passou. As palavras de ordem têm um efeito de curta duração. O ministério está montado, o congresso lhe é favorável, um enorme poder lhe foi atribuído. Este é o momento, esta é sua oportunidade. A oposição está preparada para acusar qualquer movimento seu, seja benéfico ou não à nação. Seus apoiadores, por sua vez, estão com os louvores já ensaiados para suas excelentes decisões. O momento é de aproveitar a oportunidade para fazer o bem, para realmente caminhar em uma nova direção. Não se espera milagres (bem, talvez alguns esperem), mas eu espero passos acertados, decisões justas, capacidade de integrar uma nação fragmentada. Capacidade de ouvir sem perder seu rumo. A integridade de confrontar o erro em qualquer canto onde seja descoberto. Esta é sua oportunidade. Estamos aguardando, uns com certeza de seu fracasso, outros já comemorando seus acertos. Imagino que, como eu, a grande maioria esteja esperando com expectativa que algo melhore, e receio de que tudo se torne mais uma esperança perdida.

O mesmo praticamente pode ser dito de cada um de nós que segue a Jesus. Todas a benções espirituais já nos foram concedidas (Efésios 1.3). Temos o Senhor Jesus do nosso lado. Nossos pecados já foram perdoados, muito embora ainda tenhamos que enfrentar algumas das consequências. O que faremos com este ano, com este dia, com o resto de nossas vidas? Que farei com aquela amizade que nunca restaurei? O que farei com aquela palavra dura que proferi? O que farei com aquela pessoa que me buscou? O que farei com o novo ministério que me foi oferecido? O que farei com este dom da vida que me é concedido? Assim como o presidente, o que se espera de nós é que vivamos com justiça, com amor, com integridade e compaixão.

Como pano de fundo desta exortação Paulo nos lembra que os dias são maus. O resumo é que os tempos são difíceis e oportunidades passam. Em Cristo sempre há um recomeço, mas o momento perdido não volta mais. Aquele momento em que eu podia fazer a diferença para Deus não volta mais. Pela graça dele, outros virão, mas o tempo não volta atrás.

Procure compreender a vontade de Deus
Neste ponto eu confesso que minha convicção é que aquilo de melhor que um governante pode fazer é buscar a vontade de Deus, pois minha perspectiva é que Deus tem o melhor tanto para o que crê como para quem não crê. Um aborto não é ruim somente para um crente e bom para o não crente. A única diferença é a opinião pessoal, mas o Criador dos céus e da Terra já definiu o que é bom e o que é mau. A Palavra afirma que todos vamos prestar contas e que “de Deus não se zomba” (Gálatas 6.7). Qualquer pessoa que semear os valores de Deus será abençoada e qualquer um que semear valores contrários ao reino colherá destruição.

Quem já teve de cortar despesas em casa devido a um aperto no orçamento sabe como estas decisões são complexas e raramente agradam a todos.
O novo presidente é o governante de todos os brasileiros. Tanto dos que o elegeram como daqueles que avaliam sua eleição como a maior tragédia das últimas décadas. É seu papel buscar o bem de todos. Neste ponto, me confesso talvez pouco democrático… Não creio que a voz do povo é a voz de Deus. Creio que uma virada no nosso país só será possível se decisões difíceis e impopulares forem tomadas. Quem já teve de cortar despesas em casa devido a um aperto no orçamento sabe como estas decisões são complexas e raramente agradam a todos.

O que a Palavra tem a dizer ao nosso presidente e, por princípio, também a nós? Sou levado rapidamente ao texto de Romanos 14.17-18:

17Pois o Reino de Deus não é comida nem bebida, mas justiça, paz e alegria no Espírito Santo; 18aquele que assim serve a Cristo é agradável a Deus e aprovado pelos homens.

A definição mais simples da expressão “Reino de Deus” é o âmbito onde sua vontade é realizada, onde seu governo não é contestado. Assim, meus conselhos ao novo presidente seriam três: justiça, paz e alegria.

Saldao
Oro para que este governo seja justo. Com isso não estou falando meramente de nosso sistema judiciário, mas de ações corretas, decisões que honrem a verdade, defendam os mais fracos, promovam a responsabilidade pessoal e social. Oro para que os ímpios não prevaleçam e se enriqueçam às custas dos mais fracos. Oro para que a verdade, mesmo que desagradável, seja o destino que este governo busca. Oro para que privilégios, mesmo sendo legais do ponto de vista jurídico, mas abusivos em termos de justiça, sejam revistos.

Oro por você e por mim, para que nossa justiça pessoal ultrapasse em muito a dos fariseus. Que nossa vida pessoal, familiar, profissional etc. glorifique a Deus por estar alinhada com sua vontade. Oro para que aqueles que nos acusam por sermos cristãos fiquem sem argumentos ao observar a correção de nosso caminhar.

Oro para que este governo promova a paz. Não uma paz de conivências aos injustos, mas uma paz profunda, em que o povo possa sentir-se seguro. Onde a violência seja repreendida, onde a hostilidade não ganhe dividendos. Com isso não estou falando apenas do projeto do desarmamento, pois tenho assistido atitudes de extrema violência e hostilidade em ambientes totalmente desarmados. Oro por um governo que abandone a postura de campanha sem abandonar suas promessas de campanha. Oro por um governo que consiga aglutinar nossa nação tão diversa sob algumas bandeiras, que eu creio, todos defendem.

Oro por você e por mim, para que nossos corações estejam em paz. Oro para que nossos relacionamentos, naquilo que depender de nós, estejam em paz. Oro para que “a paz de Deus, que excede todo o entendimento”, guarde “o coração e a mente de vocês em Cristo Jesus” (Filipenses 4.7).

Oro por um governo que abandone a postura de campanha sem abandonar suas promessas de campanha.
Por fim, oro por alegria. Curiosamente, a expressão traduzida por alegria não se refere a uma alegria tumultuosa, como a de um estádio de futebol. Nos escritos de Paulo essa alegria está sempre conectada com a esperança que nos aguarda. Assim, a expressão poderia ser traduzida como contentamento ou satisfação. Oro, então, por um governo que, com base em um projeto de longo prazo (nenhum projeto que valha a pena será de curto prazo), sacrifique o agora pelos benefícios que virão. Oro por um governo que promova a satisfação, não de conquistas rápidas e passageiras, mas a satisfação de realmente construir um país diferente.

Oro mais uma vez por você e por mim, para que nós também estejamos satisfeitos e felizes com o que Deus nos tem dado. Oro para que o espírito consumista de nossa era não contamine tanto nossos coração a ponto de termos pastores e teólogos exigindo de Deus bens e posses. Oro para que sejamos marcados por contentamento, copiando a atitude do apóstolo Paulo: “Aprendi o segredo de viver contente em toda e qualquer situação, seja bem alimentado, seja com fome, tendo muito, ou passando necessidade” (Filipenses 4.12b).

Em quem ou no que acreditar?

Em quem ou no que acreditar?
Daniel Lima

O primeiro turno das eleições passou. Agora começam os primeiros movimentos políticos visando o segundo turno. Um dos elementos mais surpreendentes nestas situações é como lidamos com a mídia social. Devo confessar que sou um forasteiro no mundo digital, talvez por isso admito também um profundo senso de impotência. Notícias se acumulam com uma velocidade alucinante. Acusações e contra-acusações. Posts obviamente mentirosos, de ambos os lados, colocados ali por pessoas que conheço e que, em circunstâncias normais, são pessoas razoáveis, sensatas e equilibradas. Fica muito difícil de saber em que acreditar e, consequentemente, em quem acreditar.

Neste quadro há um outro aspecto tanto ou mais surpreendente. Por força da lei, todo candidato deve apresentar um plano de governo. São documentos genéricos, mas que devem apresentar linhas gerais daquilo que os candidatos pretendem fazer. Tomei o tempo de ler vários deles. Devo dizer que foi trabalho árduo, foram muitas páginas com várias afirmações ousadas e soluções, a meu ver, fantasiosas. Sendo peças de campanha política, é óbvio que devem ser lidas com o devido cuidado e uma boa dose de desconfiança. Ainda assim, são declarações daquilo que os candidatos afirmam que pretendem fazer. São como cartas de intenções. O que tem me chocado é que muitos apoiadores, inclusive os mais ardorosos, de ambos os lados não leram estas propostas. Conversei um tempo atrás com um jovem inteligente, articulado e especialmente passional. Na época eu lhe perguntei se ele havia lido um destes documentos do seu partido com mais de 300 páginas. Ele, com extremo descaso, afirmou que não e que nem precisava ler… pois acreditava em seu candidato.

É possível acreditar tanto em uma pessoa, que, não importa o que ela diga, eu ainda lhe consagro minha lealdade? Por outro lado, é possível acreditar tanto naquilo que uma pessoa diz, que, não importa sua história, o que ela tem feito, eu ainda assim continuo a seguir seu discurso? Há, no campo da antropologia, um livro clássico escrito por Eric Hoffer (1898-1983) em que ele descreve movimentos de massa e o que ele chama de “true believer”. Estas são pessoas que, uma vez escolhido o foco de sua confiança, ou de seu ódio, desligam a mente e se recusam a ler, ouvir, analisar e ponderar. Na verdade, seu significado está em participar passionalmente de uma causa. Elas rejeitam com ardor a imparcialidade, pois é justamente no alinhamento radical (amando seu candidato ou partido e odiando o inimigo) que elas encontram sentido de vida. Mais do que as possíveis consequências desastrosas de suas escolhas, “true believers” temem estar errados.

Antes de lançarmos olhares de desprezo aos “true believers”, é preciso lembrar em primeiro lugar que um indivíduo nesta condição nunca se reconhece como tal. Em segundo lugar, basta lembrar da Alemanha na década de 1930 ou dos Estados Unidos na década de 1960 para entender que pessoas cultas e, em condições normais, bastante razoáveis podem, sim, se tornar massa de manobra. Cabe a nós mais uma autocrítica e autoanálise criteriosa do que nos apegarmos à soberba da certeza absoluta nestes pantanosos campos da política.

Como podemos, enquanto seguidores de Jesus, lidar com estes tempos tempestuosos? Como podemos discernir, em meio a tanta propaganda e tanta paixão mal informada, em que acreditar; ou melhor, em quem acreditar? Recentemente eu me deparei com uma passagem que me levou a refletir sobre este tema. Trata-se do curto relato de João 4.46-53:

Mais uma vez ele visitou Caná da Galileia, onde tinha transformado água em vinho. E havia ali um oficial do rei, cujo filho estava doente em Cafarnaum. Quando ele ouviu falar que Jesus tinha chegado à Galileia, vindo da Judeia, procurou-o e suplicou-lhe que fosse curar seu filho, que estava à beira da morte. Disse-lhe Jesus: “Se vocês não virem sinais e maravilhas, nunca crerão”. O oficial do rei disse: “Senhor, vem, antes que o meu filho morra!”. Jesus respondeu: “Pode ir. O seu filho continuará vivo”. O homem confiou na palavra de Jesus e partiu. Estando ele ainda a caminho, seus servos vieram ao seu encontro com notícias de que o menino estava vivo. Quando perguntou a que horas o seu filho tinha melhorado, eles lhe disseram: “A febre o deixou ontem, à uma hora da tarde”. Então o pai constatou que aquela fora exatamente a hora em que Jesus lhe dissera: “O seu filho continuará vivo”. Assim, creram ele e todos os de sua casa.

A história é bem simples. Um homem pediu a Jesus para curar seu filho, pois estava sem esperança de salvá-lo com os métodos que havia usado. Jesus lhe diz que seu filho já foi curado, ele crê, vai para casa e percebe que seu filho foi curado exatamente na hora em que conversou com Jesus. Com esta constatação o homem e sua família passam a crer em Jesus. Apesar da simplicidade do relato, há alguns princípios interessantes de se observar. Este homem creu na palavra de Jesus e, uma vez tendo verificado sua eficácia, creu em Jesus. Este processo parece simplista, mas talvez nos dê uma dica de um método para decidir no que e em quem acreditar.

Certamente já abundavam rumores (fake news) sobre Jesus. Os fariseus o acusavam de herege e blasfemo, os saduceus de agitador e revolucionário, os habitantes de Judá suspeitavam dele por ser nazareno e os galileus duvidavam dele por ser da região. Ele curava no sábado e se misturava com pessoas de má fama. Era um mestre, mas fazia coisas inesperadas e inconvenientes. Suas histórias eram cativantes, mas quase sempre surpreendiam os ouvintes. No entanto, em seu desespero este homem vai a Jesus e lhe apresenta sua necessidade, sua queixa, seu pedido. Jesus confronta a incredulidade dele e do povo, mas ele, usando da prerrogativa dos desesperados, continua insistindo para que Jesus venha com ele. Diante de uma fé tão sincera, tão sem opções, ele afirma que o filho estava curado. E então, e não perca este ponto, este homem simplesmente creu na palavra de Jesus. É bem provável que ele ainda não cria que Jesus era o Messias. Não acreditava que Jesus era o Filho de Deus. Talvez tivesse aquela vaga esperança, aquele sonho que empurramos para o lado pois parece ser bom demais para ser verdade. Como todo pai diante da impotência de cuidar de um filho, contra toda esperança, ele apenas se agarrou à palavra de Jesus. Em meio aos rumores contrários ele foi verificar se realmente a palavra dele havia se cumprido. Ao receber a notícia, talvez precisando de mais provas, ele ainda investiga a hora em que o filho havia melhorado. Confirmando o inegável fato de que foi no exato momento que recebera a palavra, ele e toda sua casa passaram a crer em Jesus.

Calendários 2019
Há um outro exemplo marcante de crer antes de ver. Raabe era uma prostituta em Jericó. Ela não tinha muitas informações, apenas rumores do que os inimigos de Israel diziam. Ela nunca havia visto um judeu, nunca tinha lido as Escrituras, não possuía muitas informações sobre o Deus de Israel. No entanto, ela afirma:

Sei que o Senhor deu a vocês esta terra… temos ouvido como o Senhor secou as águas do mar Vermelho perante vocês quando saíram do Egito, e o que vocês fizeram a leste do Jordão com Seom e Ogue, os dois reis amorreus que aniquilaram… pois o Senhor, o seu Deus, é Deus em cima nos céus e embaixo na terra (Josué 2.9-11).

Ela só tinha ouvido rumores, mas percebia seu povo assustado e chegou rapidamente a uma conclusão: é melhor me arriscar com este Deus, mesmo sem conhecê-lo, do que continuar confiando em meu povo. Com certeza não faltavam rumores deste Deus temível que havia destruído outros povos. No entanto, ela acreditou no que ouviu e concluiu: “Jurem-me pelo Senhor que, assim como eu fui bondosa com vocês, vocês também serão bondosos com a minha família” (Josué 2.12). Ela pede então um sinal seguro, mostrando que sua fé ainda é experimental – ela ainda precisa de garantias. Com certeza, após ser salva juntamente com sua família da destruição da cidade, ela passa a crer no Deus de Israel.

Crer em palavras de homens é perigoso. Não importa o quanto queiramos que algo seja verdade, a realidade tem esta teimosa maneira de nos chocar, despedaçando nossos sonhos e fantasias. No entanto, na escolha de um político precisamos deixar de lado a paixão, as conclusões absolutas, as certezas baseadas em rumores. Precisamos ouvir as palavras que cada candidato está falando e comparar com a realidade. Promessas são fáceis, especialmente em tempos de campanha. Cuidado com paixões e com as manipulações às quais estamos sempre sujeitos. De um modo mais profundo, minha oração é que as palavras de Deus ganhem mais espaço em nossos corações do que as promessas de qualquer político. Ele tem se mostrado fiel, já os políticos…

MOVIMENTO DOS IRMÃOS

“E o que de mim, entre muitas testemunhas, ouviste, confia-o a homens fiéis, que sejam idôneos para também ensinarem os outros”
II Timóteo 2.2

UM POUCO DE NOSSA HISTÓRIA E QUEM SOMOS
O movimento dos “irmãos” é conhecido e formado por cristãos indenominacionais, que se reúnem num terreno comum a todos os que pertencem à Igreja de Cristo.
Os iniciadores deste movimento, eram jovens, a maioria ligada ao Trinity College, Dublin, Irlanda. Buscavam encontrar uma forma em que pudessem reunir-se para adoração e comunhão, desprezando as barreiras denominacionais, reunidos simplesmente como “irmãos em Cristo”.
Como procuravam reunir-se nesta simplicidade, não pretendendo formar um grupo à parte, não usavam qualquer nome que os diferençasse dos grupos existentes. Não faziam ideia que começavam um movimento, e não tinham esta intenção, pois isto seria a negação do verdadeiro propósito pelo qual se reuniam. Por volta de 1825-1827, em várias cidades da Irlanda e da Inglaterra, foram se formando pequenos grupos de discípulos de Cristo para um estudo mais aprofundado das Escrituras. Eram crentes que pertenciam a denominações diversas.

O Movimento se espalhou pelo Continente Europeu, na Inglaterra receberam o nome de “irmãos de Plymouth” (Plymouth Brethrem), porque no início, formou-se uma igreja local bem numerosa na cidade de Plymouth. Em outros lugares são chamados de “darbistas” (Por causa de John Nelson Darby) para designar o grupo exclusivista. Em Portugal, Argentina e outros países são conhecidos como “assembleia de Deus”. No Brasil, alguns lugares são conhecidos como “igreja cristã”, “irmãos unidos” e até mesmo “casa de oração” por geralmente denominarem assim a casa onde se reúnem.
Sobre este assunto, assim escreveu o irmão Silas G. Filgueiras:

“A existência de muitos nomes indica que nenhum satisfaz plenamente, porque nenhum preenche a finalidade e alguns envolvem alguma inverdade. O desejo, porém, tem sido sempre o de se reunirem como cristãos, remidos por Cristo, como uma expressão local da Igreja de Cristo na terra, sem usar qualquer nome, ou outro distintivo, com o fito de direfençá-los dos outros irmãos em Cristo. Esta é a razão de preferirem tratarem-se uns aos outros como “irmãos” (com “i” minúsculo) por ser um nome aplicável a todos os membros da Igreja de Cristo na terra, não podendo, entretanto, ser apropriado por um grupo somente. A ideia de divisão em grupos e o uso de nomes para se designarem é um mal que começou muito cedo na história da Igreja, e que foi prontamente condenado por Paulo. (1 Co 1.11-13).
O uso de designações, tais como “irmãos”, “igreja cristã” não escapa à acusação de ser impróprio, uma vez que toma para um grupo, nomes que pertencem a todo o povo de Deus, embora, diga-se de passagem, nomes como “presbiteriano”, “batista”, “assembleia de Deus”, etc. são também passíveis da mesma acusação.
O importante não é pertencer a este ou àquele grupo, porém, pela graça de Deus, ter um espírito indenominacional, e ter a visão da comunhão universal, da única verdadeira Igreja que é formada por “todos os que, em todo lugar, invocam o nome de nosso Senhor Jesus Cristo, Senhor deles e nosso”. (1 Co 1.2) “
No Brasil, o primeiro grupo a reunir-se, foi em 1878, na cidade do Rio de Janeiro à rua da América, 4, formado por membros oriundos da Igreja Fluminense, influenciados por Richard Holden, então residente em Portugal, que fora co-pastor da igreja Fluminense quando esteve no Brasil.
Mais tarde, em 1896, chega o primeiro missionário ao Brasil. Stuart Edmund Mc Nair. Atuando primeiro na cidade do Rio de Janeiro, mais tarde, Petrópolis, Sampaio, Del Castilho, Bemposta e Zona da Mata, região limítrofe entre os Estados do Rio de Janeiro, Minas Gerais e Espírito Santo, posteriormente fixando residência em Conceição de Carangola-MG.
Não se sabe ao certo quantas igrejas locais existem hoje no Brasil, porém estima-se mais 700 espalhadas por todas as regiões, sendo a região Sudeste com maior número.

CONVICÇÕES E POSIÇÃO DOS “IRMÃOS”

A) A Igreja de Cristo é constituída de todos os que foram comprados com Seu sangue (Atos 20.28) e Jesus orou para que todos fossem um (Jo 17.21), e assim sendo a divisão em seitas, partidos e denominações é contrária à vontade de Deus (1 Cor 1.11-13). O argumento de que as divisões estimulam os crentes a se esforçarem pela sua denominação, produzindo emulação, e assim dão maior contribuição para o progresso do Evangelho, é pensamento humano, esquecendo que a obra de Deus é somente aquela feita pelo poder de Deus, dirigida pelo Espírito Santo.

B) Entendem que no Novo Testamento não encontramos base para a divisão dos crentes em ordenados (clero) e não ordenados (leigos), colocando assim, todos os crentes no mesmo nível eclesiástico. Também não encontramos o ensino de que a execução de certos atos (batismo, Ceia do Senhor, etc.) fica restrita aos ordenados, ou a uma classe.

C) Impedem a promoção pessoal e condenam o culto da personalidade.

D) Consideram a distinção entre Israel e a Igreja de Cristo, que são ambos povo de Deus, porém tem bênçãos e privilégios próprios a cada um.

E) Suas igrejas locais são autônomas, mantendo somente relações de fraternidade cristã umas com as outras. O governo é exercido pela igreja reunida, e por unanimidade (1 Co 1.10; Rm 12.16). Compreendem que é o Espírito Santo quem dirige as reuniões da igreja, e usa os instrumentos que Ele escolhe como no citar hinos, orar, ler um texto das Escrituras, fazer o comentário do mesmo, etc. Quanto ao ministério, na reunião da igreja, os “irmãos” seguem o princípio da liberdade de ministério segundo os dons concedidos pelo Espírito Santo, conforme I Cor 14.26-33, mas entendem que o ministério não proveitoso deve ser evitado, ou não permitido.

F) Entendem estes irmãos que na Bíblia se encontra todo o ensino sobre a Igreja, e só nela. Não há outra fonte de informação. Quando não há um ensino claro a respeito de determinado assunto, não deve ser estabelecida uma interpretação que terá de ser aceita por todos.

Sinésio Barreto, Petrópolis-RJ

Bibliografia:
– Álbum de Reminiscências – Stuart E. McNair
– Mair Reminiscências – Stuart E. McNair
– “Os irmãos” – Silas G. Filgueiras
– Convicção e posição dos “irmãos”
– A History of the Brethrem Movement – F. Roy Coad

A Beleza dos Besouros


A Beleza dos Besouros

Thomas Lachenmaier

Quem observa a Criação com a mente aguçada descobre uma infinidade de espécies nos mares e nas florestas, descobre a imensa diversidade da flora e da fauna, descobre os espaços profundos do Cosmos…

Um livro sobre insetos esclarece justamente isso. Käfer und andere Kerbtiere (Besouros e outros Insetos), contendo desenhos de Bernard Durin (1940-1988) é um deleite para os olhos. Com sua habilidade praticamente insuperável, Durin desenhou uma seleção de insetos hexápodes (que têm seis pernas). A coloração, os mínimos detalhes – perfeição técnica, capacidade artística e exatidão científica se mostram neles de maneira belíssima.

Observando esses desenhos – desde o besouro longicórnio à cigarra – o leitor é imediatamente impactado pela diversidade e beleza desses seres vivos. Ele abre seus olhos para seres vivos do cotidiano e que normalmente não observamos, por serem muito pequenos ou talvez por rejeição (insetos nocivos). A beleza desses insetos leva o observador ao fascínio. As figuras proporcionam alegria diante da multiplicidade e beleza das formas bizarras, das cores e combinações. Não raramente elas provocam um sorriso ao observador diante da aparência desses animais. Fica evidente que o Criador, além do Seu poder de criação, também possui senso de humor. Através do olhar a cada um desses fascinantes besouros, Deus proporciona ao homem uma clara noção da Sua existência.

Não somente a maravilhosa constituição desses animais, mas também a conceituação e a fala das pessoas apontam para o fato de terem sido criadas. Não é à toa que se fala em criaturas e seres criados – e não de “obras do acaso” ou “sem-projeto”. Se as pessoas não têm palavras corretas para reconhecer algo casual ou involuntário, isso indica que os seres vivos foram criados e que não surgiram casualmente. Quando a pessoa fala em ser vivo, então ela obviamente o formula de uma maneira partindo do princípio de que esse ser vivo foi criado (criatura, creatio = criação). De onde essa obviedade influencia a definição dessa denominação? Ela ocorre porque, de certa maneira, de fato é autoexplicativa, de que o ser vivo surgiu de modo criativo (isso significa: com poder de criação, inteligência e fantasia): criaturas são seres formados, originárias de uma Criação.

É algo admirável observar como a natureza domina a difícil tarefa de conciliar o luxo (os fantasiosos modelos, cores e formas) e a estratégia de sobrevivência. “A natureza”, dizem os biólogos evolucionistas, “apresenta uma inteligência direcionada e planificada”, o que, no entanto, ela nem poderia ser de acordo com o modelo da Evolução. Com isso eles entendem que a natureza de fato “dominou” uma tarefa difícil – isto é, que ela sabia antecipadamente dos requisitos que seriam necessários para o ser vivo formado e assim o concebeu de acordo (!). Acrescente-se a isso ainda essa inteligência literalmente imprevisível, incontida e infinitamente criativa: a diversidade desses seres hexápodes é tão imensa que mesmo “as extensas enciclopédias não seriam suficientes para documentá-las mesmo apenas aproximadamente ao modo completo”. Entre os especialistas em insetos, os entomologistas, há muita discórdia sobre a quantidade de espécies de insetos que existem. Até hoje, foram descritas entre 1,2 a 1,5 milhão de espécies.

Ao final, o espanto se transforma em admiração e louvor para Aquele que criou tudo isso com sabedoria imensurável. Se Deus já dedica essa transbordante estima criativa ao escaravelho e ao percevejo-escudo, quanto mais nós deveríamos entoar hinos de gratidão? Entoar hinos de gratidão que ecoam através de toda a Bíblia, desde o Gênesis ao Apocalipse? Não deveríamos também, ao vê-Lo em Seu poder de Criador, reconhecê-Lo como o Senhor e Salvador do mundo e que, com nosso retorno para Ele, deseja somente o nosso bem? “Grandes e maravilhosas são as tuas obras, Senhor Deus todo-poderoso. Justos e verdadeiros são os teus caminhos, ó Rei das nações” (Apocalipse 15.3).

O mundo criado é um convite para crer e se alegrar reconhecendo essas maravilhas. “Eu te louvo porque me fizeste de modo especial e admirável. Tuas obras são maravilhosas! Digo isso com convicção” (Sl 139.14). (Thomas Lachenmaier  — factum-magazin.ch)

CINCO MISSIONÁRIOS MÁRTIRES NO EQUADOR

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CINCO MISSIONÁRIOS MÁRTIRES NO EQUADOR

Cinco homens – todos eles jovens – com personalidades diferentes, provenientes de diversas zonas do Estados Unidos, chegaram ao Equador com um objectivo comum. Todos eles tinham respondido a uma mesma chamada: a de pregar o evangelho onde ele nunca tinha sido pregado. Um mesmo e terrível povo estava no coração deles: os Aucas. No entanto, para evangelizá-los, deveriam estar dispostos a pagar o preço.

Operação Auca

O domingo 8 de Janeiro de 1956 tornar-se-ia uma data inesquecível, ainda que dolorosa, para as missões das selvas equatorianas na América do Sul. Nesse dia o missionário Nate Saint, partiu cedo de Arajuno, a base das operações da “Operação Auca”, e sobrevoou pela enésima vez no seu pequeno Piper Cruiser, a aldeia dos temidos Aucas. A falta de alguns homens encheu-o de alegria. De volta para margem do rio Curaray, a que os missionários haviam dado o nome de “Palm Beach”, avistou um grupo de aproximadamente dez homens que se dirigiam precisamente para esse lugar. Em poucos minutos e adiantando-se ao grupo auca, Nate aterrou junto aos seus companheiros:

— Finalmente rapazes! Eles vêm até cá!

Durante três meses e dois dias estavam fazendo aproximações por avião, deixando prendas atrás de prendas, com mensagens de boa vontade e agora finalmente, tinha chegado a hora de vê-los cara-a-cara, em terra. Os cinco misionários tinham entrado em território auca havia cinco dias e estes, finalmente estavam decididos a aproximar-se.

Com esta boa notícia, Nate chamou às 12h30 a sua esposa Marj, que seguia atentamente os seus movimentos através de radio, em Shell Mera, a base das missões cristãs no Equador oriental. Com palavras entrecortadas disse:

— Uma comissão de 10 homens vem a caminho. Parece que vão estar aqui para o culto da tarde. Orem por nós. Este vai ser o dia! Falamos outra vez às 16h30.

Cinco vocações incontornáveis

A “Operação Auca” foi o ponto final de uma estratégia missionária que havia começado muito tempo atrás no coração de cinco jovens missionários norte-americanos.

Desde muito jovem, Jim Elliot, nascido em 1925, preparou-se para aquilo que ele achava ser a missão da sua vida: pregar o evangelho a pessoas que nunca o tinham ouvido em algum país hispano-americano. Desde pequeno, familiarizou-se com as Escrituras, e desde os anos de colégio – onde foi bom aluno – interessou-se pelo estudo da língua espanhola.

Em Novembro de 1947, Jim escreveu a seguinte carta aos Jim Elliot 1 seus pais: “O Senhor deu-me uma sede de justiça e piedade para qual Ele é a única fonte. Somente Ele pode satisfazer esta sede, ainda que Satanás esteja interessado em apagá-la ao suscitar um vasto leque de diversões, tais como a vida social, a busca de renome, de boa posição, ou a obtenção de diplomas académicos… O que será senão o desejo dos pagãos, cujas paixões são falsas e pervertidas? Estes valores não podem em nada cativar a alma que já viu a beleza do Senhor. Provavelmente vão ouvir falar da menção que obtive na faculdade: ela reveste-se do mesmo carácter. Esse diploma vai ser arrumado daqui a pouco numa velha mala na nossa cave, juntamente com o prémio especial, resultado de 4 anos de estudos em Benson. “Debaixo do sol, tudo é vaidade, e anda atrás do vento”. A verdadeira vida está escondida em Cristo…Nesta vida nunca conseguimos uma realização completa: chegar a um objectivo há muito desejado, levanos a ambicionar por outro ainda mais elevado – processo que só se termina com a morte… Que o Senhor nos ensine a viver cada dia como se fosse o último, como Paulo disse: Não tenho a minha vida em nada por preciosa, somente possa acabar a carreira da fé…”

No verão de 1950, depois dum encontro com um missionário que estava no Equador e que o informou das necessidades daquela região, Jim percebeu com maior clareza que deveria ir para lá. Os seus pais interrogaram, juntamente com outros, se o ministério do Jim não seria mais frutuoso nos Estados Unidos onde tantas pessoas ignoram ainda a verdadeira mensagem do Evangelho. Ele respondeu: “Não consigo ficar no meu país enquanto os Quichuas perecem. Que importa se as igrejas repletas da minha terra não estão avivadas? Elas têm as Escrituras, Moisés e os profetas, e muito mais ainda. A condenação delas está escrita nos seus livros de cheques e no pó que recobre as suas Bíblias.”

Em Agosto de 1951 Jim encontrou-se com um velho amigo, Peter Fleming. nascido em 1928. Este acabava de se formar e estava à procura da direcção divina para a sua vida. Como fruto desse encontro, ambos se deram conta de um destino comum. Em Fevereiro de 1952 Jim e Pete tornaram o sonho deles realidade, viajando para o Equador.

Jim Elliot e Peter Fleming em 1952 O noivado de Pete Fleming com Olive Ainslie não foi impedimento. Partiu sem as responsabilidades de uma família. Seria assim pelo menos no primeiro ano.

Depois de seis meses de estudo de espanhol em Quito, foram para a Selva, até Shell Mera, onde se situava a base da Associação Missionária de Aviação (M.A.F.). Dali seguiram viagem até Shandia, uma estação missionária Quichua.

2 Em Dezembro de 1952, juntou-se a eles, Edward McCully, antigo companheiro de colégio de Jim, desportista e orador destacado. Ed cresceu no Middle West numa família onde o Senhor tinha a primazia. Filho de um pregador activo, que se deslocava um pouco por toda a parte nos Estados Unidos e que testemunhava fervorosamente aos seus colegas de trabalho, Ed tinha pensado tornar-se advogado, mas antes de se matricular no curso de Direito, Deus mostrou-lhe outro caminho. Agora ele, com sua esposa Marilou e o seu pequeno Stevie juntavam-se ao grupo missionário.

Ed Mac Cully, Marilou e Stevie Nate Saint Nate Saint, piloto da M.A.F, e a sua esposa Marj Farris, chegaram a Shell Mera alguns anos antes, em 1948. Como profissional de mecânica dos Aviões, a sua missão consistia em transportar no seu Piper Cruiser, missionários, suas provisões, doentes, até e desde as zonas mais afastadas e isoladas. As preocupações dele eram a segurança, a eficiência e a economia. Num dos aviões, resolveu trocar os belos assentos, por uns menos confortáveis e mais leves que permitiriam transportar mais comida e equipamentos. Nate tinha um princípio espiritual que também aplicava aos aviões: “Quando o voo da vida termina e quando descarregamos do outro lado, aquele que se livrou de cargas inúteis será aquele que apresentará a carga mais valiosa ao Senhor.”

Roger Youderian foi o último elemento a juntar-se ao grupo. Nascido em 1924 numa fazenda do Estado do Montana, era o sétimo filho duma família de agricultores. Recebeu por parte da mãe uma formação bíblica fervorosa e sólida. Tornou-se páraquedista do exército, e lutou na Segunda Guerra Mundial. Quando estava em Berlim, sentiu a chamada de Deus para ser missionário. Desde 1953 que servia entre os índios jivaros e os atshuara.

3 Uma carga especial

Cinco homens com talentos e personalidades muito diferentes, vindos dos Estados Unidos, da Costa Oeste e ainda do Middle West chegaram ao Ecuador; diferentes mas unidos por um desejo comum. Todas as outras tribos em volta tinham sido alcançadas: os jivaros, os quichuas, os colorados, os cayapas, mas os aucas tinham resistido firmemente. Quem eram e porque eram tão hostis?

Os aucas eram uma tribo – e um território – impenetráveis. Todos os missionários anteriores, desde Pedro Suárez em 1667 tinham sido assassinados. Apesar de tudo, eles abriram-se à civilização mas vez após vez terminou em tragédia. A hostilidade para com o homem branco acentuou-se por causa dos caçadores de borracha no princípio do século XX, que os tinham roubado, torturado, escravizado e matado. Isto havia remetido os aucas à desconfiança e ao temor.

Este povo intrigava os missionários. “Seriam eles assassinos natos? Matariam eles para preservar o seu território? Ou matariam para roubar? Estas perguntas ficavam sem resposta. No entanto, algumas coisas estavam claras: para os aucas, o homem branco era indesejado, e qualquer que se atrevesse a pisar território auca, punha a sua vida em risco.

“A Operação Auca”

A operação começou em Setembro de 1955.

O primeiro passo de aproximação foi feito por Ed McCully que se estabeleceu em Arajuno, um lugar onde viviam cerca de uma centena de quichuas, situado à beira do território auca. Somente um rio os separava. Como tal, Ed colocou uma rede de arame eléctrica em volta da casa e tinha sempre à mão uma pistola e uma espingarda, para poder intimidar em caso de algum ataque. Arajuno começou por ser a base das operações.

No dia 19 de Setembro, Nate e Ed sobrevoaram aquela selva cerrada em busca de zonas habitadas. Depois de alguma procura, encontraram cerca de 15 lugares mais abertos e umas poucas casas. Duas semanas depois, Nate e Peter realizaram uma nova exploração e descobriram meia dúzia de casas a somente 15 minutos de voo de Arajuno. Não havia dúvidas quanto ao próximo objectivo!

4 Para ultrapassar a barreira da língua, Jim viajou até uma fazenda das proximidades onde vivia Dayuma, uma mulher auca que, depois de um combate sangrento, viu toda a sua família ser massacrada e não teve outra solução senão fugir. Ela ensinou-lhe algumas frases que permitiram aos missionários a primeira aproximação. “Biti miti punimupa” que significa “eu gosto de vocês”, “Biti winki pungi amupa” que significa “Quero entrar em contacto convosco”, foram algumas das frases que Jim anotou minuciosamente no seu bloco assim como mais algum vocabulário usual.

Dayuma No dia 6 de Outubro, começaram a lançar desde o ar, algumas prendas. Para isso usavam uma técnica que Nate engenhosamente havia criado. Com esta técnica a que chamou de “corda em espiral”, lançavam um cesto amarrado a uma corda. O avião voava em círculos apertados a uma determinada velocidade que permitia ao cesto cair quase direito em determinado sítio pretendido. Em baixo alguém podia recolhê-lo com a mão, tirar o que continha e até colocar dentro alguma coisa antes que fosse novamente levantado desde o avião.

Seguiram-se mais visitas e mais prendas, umas atrás das outras. Alguns utensílios, ferramentas, roupas, etc.. Os missionários achavam que um programa regular de entregas durante algum tempo poderia convencer os índios das boas intenções do grupo. Para despertar alguma curiosidade, eram lançadas coisas diferentes de umas vezes para as outras. As reacções eram animadoras. Os aucas estavam a responder como esperado. O avião era aparentemente aguardado com entusiasmo. Nenhuma reacção de medo, nem de ameaça. As roupas oferecidas eram logo vestidas.

Na quarta viagem, Nate instalou um altifalante que funcionava com ajuda de uma bateria para poder enviar as mensagens amigáveis que Jim tinha aprendido. Na sexta semana, os aucas começaram a agradecer, de vez em quando com alguma oferta que colocavam no cesto. Uma delas foi um belo papagaio. Cada sinal amigável da parte dos aucas era recebido com grande alegria por parte dos missionários.

Ed MacCully, Peter Fleming e Jim Elliot No dia 3 de Dezembro, já iam na nona visita. À medida que o tempo passava, viam aproximar-se o dia de um encontro terrestre. Para isso, começaram a explorar o terreno, o que os levou a descobrir uma praia junta ao Curaray onde seria possível aterrar. Ficava a 6/7 quilómetros da “cidade terminal”, povoação auca que costumavam visitar.

O plano estava traçado até ao mais pequeno detalhe. Cada missionário tinha um cargo na “operação Auca”. Inclusivamente a Marj, teria a importante tarefa de manter o contacto via rádio com o avião desde Shell Mera. Por seu lado, Bárbara (a esposa de Roger) ficaria em Arajuno com Marilou (esposa de Ed) com a tarefa de preparar a comida que seria levada diariamente para Palm Beach.

5 Nesta altura, as cinco esposas (entretanto o Jim Elliot já se tinha casado com a Elisabeth e o Peter Fleming com a Olive Ainslie), tinham bem presente a possibilidade de virem a ficar viúvas nesta operação, mas a conclusão era clara: quando se casaram, não tinham dúvidas quanto a Quem ocuparia o primeiro lugar – Deus e a Sua obra.

Diário do Jim Elliot onde ele escreveu a sua célebre frase…”Não é louco quem abre mão do que não pode reter, para ganhar o que não pode perder.”

Na manhã do dia 3 de Janeiro, os cinco homens cantaram juntos um dos seus hinos preferidos e foram. No avião levaram os utensílios e ferramentas necessários, incluindo, uma pequena casa que instalaram no tronco de uma árvore, a 10 metros de altura, junto à praia.

Na quarta e na quinta, Nate e Peter que iam dormir a Arajuno, sobrevoaram a “Cidade terminal” convidando os homens a virem a Palm Beach. Alguns pequenos sinais deixavam adivinhar uma aproximação para breve.

Na sexta às 11:15 ouviu-se uma voz do outro lado do rio, e viram-se 3 aucas, um homem e duas mulheres. Os missionários receberam-nos amigavelmente. O homem, ao qual deram o nome de “George”, mostrava interesse pelo avião. Então Nate convidou-o a sobrevoar povoação auca. O resto do dia correu sem surpresas.

Nate Saint e “George“ no primeiro encontro terrestre

No sábado, não aconteceu nada de especial.

O dia “D”

No domingo 8, Nate avistou desde o ar, um grupo de 10 aucas a aproximar-se. Às 12h30, contactou sua esposa via rádio, informando-a da situação e pedindo-lhe para se manter atenta para o contacto das 16h30.

Às 16h30, as esposas tentavam contactar o avião. Umas desde Shell Mera, outras desde Arajuno. Chamavam para Palm Beach, mas só restava o silêncio. Esperaram até à noite, na expectativa de que o silêncio se devia a algum pequeno contra-tempo. Os minutos eram longos e dolorosos.

6 Às sete da manhã do dia 9, Johnny Keenan, colega de Nate na M.A.F. sobrevoou a praia de Palm Beach para conseguir algumas notícias dos companheiros. Às 9h30, Johnny, transmitiu a informação, que Marj de seguida também retransmitiu a todos:

—Johnny encontrou o avião na praia. Arrancaram-lhe o estofo. Ninguém à vista.

Os dias seguintes

Na quarta, colegas missionários, militares norte-americanos e equatorianos organizaram uma operação de resgate que partiu de Arajuno rumo a Palm Beach. Abrigavam ainda a esperança de poderem encontrar um deles com vida, eventualmente tentando regressar a pé para a base de Arajuno.

Elisabeth Elliot, após a notícia Quando regressaram a Palm Beach, tinham descoberdo 4 corpos; o quinto tinha sido avistado pouco antes mas foi impossível reencontrá-lo nas águas abaixo. A equipa de salvamento sepultou os corpos debaixo da árvore onde os missionáiros tinham instalado a casa.

No sábado, o capitão Dewitt do serviço de socorros, convidou as viúvas a sobrevoar o local onde tinham sido sepultados os seus maridos. Ao regressar Marj Saint, viúva de Nate Saint, afirmou:

— É o mais belo cemitério do mundo!

O muro abriu-se

A confiança serena das jovens mães ora viúvas ajudou as crianças a encararem a situação sem qualquer sentimento de tragédia. Tratava-se somente do cumprimento do vontade de Deus. “Eu sei que o meu papá está com Jesus. Sinto muito a falta dele, gostava que ele viesse brincar comigo de vez em quando!” dizia o pequeno Stevie McCully com 3 anos. De regresso aos Estados Unidos, algumas semanas mais tarde, nasceu o Matthew, irmão mais novo de Stevie. Certa vez, quando chorava, este último disse-lhe: “Não te preocupes, quando chegarmos ao céu, eu mostro-te o nosso papá”. Seria o preço demasiadamente elevado?

Elisabeth e Valérie Elliot

Para a generalidade das pessoas, parecia um desperdício de cinco jovens vidas, mas Deus tinha um plano e um objectivo em todas as coisas. Muitos viram as suas vidas transformadas após estes acontecimentos. No Brasil, um grupo de Índios duma estação 7 missionária do Mato Grosso, caiu de joelhos ao saber a notícia, pedindo a Deus perdão pela sua negligência para com os seus compatriotas índios não crentes. De Roma, um funcionário americano escreveu a uma das viúvas: “ Eu conhecia o seu marido. Ele era para mim a imagem perfeita do cristão.” Um major da Força Aérea, de serviço em Inglaterra, com muita experiência como piloto de aviões a reacção, decidiu imediatamente juntar-se à Associação Missionária de Aviação. De África, um missionário escreveu: “ O nosso trabalho não será jamais como antes. A vida deles marcou profundamente a nossa”.

Ao largo da Costa Italiana, um oficial da marinha americana foi vítima de naufrágio. Enquanto boiava à superfície da água, lembrou-se das palavras de Jim Elliot (lidas num artigo):” Quando a hora da morte chega, será que não há mais nada a fazer senão morrer?” Ele pediu a Deus para o livrar da morte, porque não estava pronto para morrer e Deus salvou-o.

No estado do Iowa, um rapazinho de 8 anos, orou durante uma semana e anunciou aos pais: “Consagrei inteiramente a minha vida a Deus. Eu quero tentar substituir um dos cinco missionários.”

O massacre dos cinco missionários, publicado pelos jornais, despertou imediatamente uma reacção no mundo inteiro. Mensagens de consolo e condolências começaram a chegar às 5 viúvas de toda a parte. Somente a eternidade poderá revelar a quantidade de orações dirigidas a Deus em favor delas, das crianças e da obra que aqueles 5 homens tinham começado.

Rapidamente fizeram-se planos para continuar a obra dos mártires. Johnny Keenan retomou os voos entregando prendas nas aldeias aucas, para demonstrar as boas intenções dos missionários. A obra nos vizinhos quichuas experimentou um reavivamento e estes também começaram a orar pelos aucas.

No dia 3 de Setembro de 1958, três anos e oito meses depois do massacre, 3 mulheres aucas que se converteram ao Senhor através do ministério da Elisabeth Elliot e Raquel Saint (irmã de Nate Saint) voltaram à aldeia onde ficaram 3 semanas falando do amor de Deus.

Alguns dias depois, Elisabeth e Raquel entraram elas mesmas nessa aldeia, como resposta a um convite. Foram recebidas como irmãs.

A morte dos cinco homens conseguiu romper a desconfiança ancestral. O Caminho para a Palavra da verdade estava agora aberto: Os aucas podiam ser alcançados pelo Evangelho.

Adaptado de Através das portas de Resplendor, de Elisabeth Elliot